LAMENTO
Porque paira tão alto o teu desdém,
Deus das velhas montanhas de granito?
Rasgo a carne a subir aonde o meu grito
Te diga a solidão que me devora,
E quando aí chego a rastejar, contrito,
É mais acima que o mistério mora!
Miguel Torga, Diário I – 11 de agosto 1952 – p. 576
Sugestão de leitura
O Poema surpreende-nos com uma expressão que indicia revolta: porquê, Deus poderoso, criador das velhas montanhas de granito, essa tua altivez, esse teu desdém?
Mas, logo nos versos 3 e 4, serenando, e numa expressão contida, o Poeta declara o que pretende: aproximar-se de Deus para poder gritar-lhe a solidão que o atormenta.
Nos dois versos finais, o Poeta atinge o cume do monte… mas é ainda mais acima que paira o Deus que procura.
Comentário
Neste poema, e em muitos outros, Torga lamenta a sua solidão perante Deus. Ele sofria com a ausência de Deus na sua vida – e essa solidão é tema muito repetido nos seus Diários. Algures, na sua obra, recordo um seu comentário em que, ouvindo, alegres, vizinhos seus irem para a missa do galo, ele reage: quanto eu daria para sentir a mesma alegria destes vizinhos que assim vivem a sua Fé cristã!
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Ler Poesia
Ler Poesia lírica exige concentração e algum tempo. Foi assim que eu tentei que os meus alunos a lessem: de modo lento, meditado, a fim de poderem captar o momento poético, ou a fração de beleza que cada Poema veicula.
Convido-os a revisitar os Poemas aqui publicados e comentados no mês de agosto.