quinta-feira, 28 de agosto de 2025

  

O brinco da tua orelha
Sempre se vai meneando;
Gostava de dar um beijo
Onde o teu brinco os vai dando.
 
Tem um topázio doirado
Esse brinco de platina;
Um rubi muito encarnado,
E uma outra pedra fina.
O que eu sofro quando o vejo
Sempre airoso meneando!
Dava tudo por um beijo
Onde o teu brinco os vai dando.

                                           (As Canções de António Boto)

1.António Boto é um poeta maior na nossa literatura. Inexplicavelmente, é um poeta hoje muito esquecido. Foi um modesto funcionário público, expulso do seu cargo por alguma imprudência no atendimento dos cidadãos. Procurou trabalho no Brasil, e aí morreu em 1959, com apenas 62 anos.

O texto lírico que hoje apresentamos - uma Canção -  foi retirado das Canções de António Boto, na edição de 1956.

2.A forma mais nobre de Poesia lírica será o Soneto que Sá de Mirando trouxe de Itália (soneto quer dizer pequeno som, em italiano) e consta de uma estrutura fixa de 14 versos, em duas quadras e dois tercetos – como vimos, na semana passada, em “Árvores do Alentejo”.  Na literatura portuguesa, são geralmente tidos como grandes mestres do Soneto Luís de Camões, Bocage, Antero de Quental e Florbela Espanca.

3.A Canção que hoje aqui apresentamos faz também parte do género lírico e deve a sua entrada em Portugal a Sá de Miranda. Difere do soneto principalmente pela sua forma que apresenta  só duas estrofes:  uma quadra, seguida duma outra estrofe de 8 ou 9 versos.

A quadra expõe um tema,  e a estrofe longa (8 ou 9 versos) desenvolve esse mesmo tema que termina com um verso igual ao do final da quadra - como realcei pelo negrito dos versos finais de cada uma das duas estrofes.

4.Predominantemente, a canção aborda temas de amor – como é aqui o caso - e nisso não difere do soneto, nem da cantiga, que são as três formas que predominam na poesia lírica.

 

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

       Árvores do Alentejo

Horas mortas.... Curvada aos pés do Monte

A planície é um brasido e, torturadas,

As árvores sangrentas, revoltadas,

Gritam a Deus a bênção duma fonte!

 

E quando, manhã alta, o sol pesponte

A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,

Esfíngicas, recortam desgrenhadas

Os trágicos perfis no horizonte!

 

Árvores! Corações, almas que choram,

Almas iguais à minha, almas que imploram

Em vão remédio para tanta mágoa!

 

Árvores! Não choreis! Olhai e vede:

- Também ando a gritar, morta de sede,

Pedindo a Deus a minha gota de água!

                                                                                                 Florbela Espanca

 

Florbela, poetisa alentejana, é natural de Vila Viçosa. Não é que isso seja importante para a nossa análise. Mas ajuda sabermos que ela conhece bem, e viveu, essa paisagem de que nos fala – e que também nós, neste agosto abrasador, estamos sofrendo.

PROPOSTA DE LEITURA

1. O soneto abre com uma notação de tempo: horas mortas… seguida, de imediato, por uma notação de espaço: um vasto brasido povoado de árvores. Os versos 3 e 4 constituem o núcleo, o nó, a parte que justifica este soneto. Surge, neste nó, a prosopopeia que possibilita a Florbela a humanização das árvores que, torturadas, sangrentas, revoltadas, gritam a Deus pela bênção duma fonte.

2. Na 2.ª estrofe, em novo tempo (é, agora, manhã alta) e em novo espaço (ao longo das estradas) Florbela retoma o cenário dramático da 1.ª estrofe, ladeando as estradas com giestas amarelo-fogo, donde emergem, hirtas e desgrenhadas as árvores, tornando mais trágicos os sus perfis a recortar o horizonte.

3. No 1.º terceto, Florbela entra num novo espaço: em si mesma (almas iguais à minha) – e declara igual ao delas o drama da sua própria vida. Também ela anseia por remédio para a sua permanente mágoa.

4. No terceto final, atinge a confidência: não choreis…Também eu ando a gritar a Deus por uma gota de água.

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A poesia não tem como objetivo a descrição do mundo; ela é, apenas, tentativa ansiosa de o poeta se rever, entender, a si próprio. Fala para se conhecer, e tem de falar, porque a necessidade de encontrar a expressão própria não lhe permite o silêncio. Daí, as obsessões poéticas. Cada um tem temas que o dominam – as suas obsessões – e a elas recorre uma vez e muitas vezes, não de modos muito diferentes. A poesia lírica tende a ser biografia sentimental do sujeito poético.

terça-feira, 12 de agosto de 2025

                                         

Hoje é o dia do aniversãrio do Poeta Miguel Torga. Nascido em 1907, faria hoje 118 anos. Por isso, em vez da quinta-feira (nosso dia da poesia) adiantámos a publicação para hoje.

                                                SECURA

Cai a chuva nos campos ressequidos,
E a verdura desperta.
Água que desce em regos paralelos,
Repartida no crivo da igualdade.
Toda a sede pode beber
Da grande fonte maternal do céu.
Todas as ervas, todas as culturas
Todas as criaturas
Menos eu.

Diário, 16 de junho de 1952

Esta Poesia é uma daquelas composições que deve ser lida outra vez, e outra vez e outra vez (cfr. Os sulcos da sede, Eugénio de Andrade, ver claro, p.17 – ou neste meu blogue em   05/07/2012 – 1657 consultas).

1.Os dois versos iniciais conformam uma Proposição clara: a chuva cai nos campos e logo a verdura desperta.

2. Esta chuva, porém, toma, nos dois versos seguintes (3 e 4), a forma dum aposto explicativo que permite ao Poeta introduzir uma alteração [um ]; - e é que a chuva agora é água, repartida por um crivo de igualdade, como dádiva da grande fonte maternal do céu. Dela saciam sua sede todas as ervas, todas as culturas, todos os seres vivos…[Desenvolvimento]. 

4. O poema termina com uma profunda desilusão: Menos eu [Fecho].

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Miguel Torga declara muitas vezes, e de muitas maneiras, que se sentia fora da grande fonte maternal do céu, e afirma repetidamente que recusa qualquer conversão.

Temos disso prova evidente na mesma página do Poema (4 de julho de 1952). Nela, Torga escreve:

“Duas doentes, no fim da consulta, prometeram que iam rezar por mim. Agradeci, mas fiquei a parafusar no proselitismo incorrigível das religiões…. Há evidentemente o argumento da caridade. Quem tem o céu teria obrigação de o repartir com o semelhante. Mas se o semelhante o não quer, o recusa, e se mortifica com a generosa insistência?

Estas palavras, e muitas outras idênticas, são largamente ditas e repetidas no Diário; contrastam, porém, com um comportamento que é exatamente o seu oposto, assim:

“Abandono tudo para correr a casa dum amigo que está com dor de dentes, e passo uma noite em claro porque operei um doente, e ele pode ter uma hemorragia. Mas a minha fraqueza maior é não poder desprezar ninguém, mesmo os próprios inimigos. São meus semelhantes, apesar de tudo, e eu não consigo descrer do homem, seja ele como for. Em vez de os esquecer, trago-os no pensamento. Sofro por eles. A minha grande alegria é admirar os outros” (Diário, 12 de agosto de 1946).

[Este comportamento de Miguel Torga em nada difere da doutrina da parábola do Bom Samaritano (Evangelho de S. Lucas)].

No primeiro texto, palavras; neste segundo, atenção e serviço aos outros. Valha-me S. Miguel Torga.

 

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

 Coimbra, 12 de março de 1952 - (I-554)
           

                            RETRATO
 

O meu perfil é duro como o perfil do mundo.
Quem adivinha nele a graça da poesia?
Pedra talhada a pico e sofrimento,
É um muro hostil à volta do pomar.
Lá dentro há frutos, há frescura, há quanto
Faz um poema doce e desejado:
Mas quem passa na rua
Nem sequer sonha que do outro lado
A paisagem da vida continua.


I [Proposição]
O 1º verso é duro como o rosto de Miguel Torga, como que talhado à podoa sobre madeira de azinho.
 
II [] – Verso 2: poderá alguém imaginar naquele perfil o encanto da Poesia?
 
III [Desenvolvimento] – Os versos 3, 4, 5 e 6 alargam a proposta inicial e respondem à interrogação (ao nó) do verso 2, recorrendo a duas metáforas:  
pedra talhada a pico e sofrimento, muro impenetrável que resguarda os frutos que tornam doce e desejada a Poesia.
 
Parte 4.ª [fecho ou conclusão]: versos 7, 8 e 9: quem passa, vendo, apenas, a normalidade da vida do Poeta, mal se aperceberá de que no interior daquele muro, aparentemente hostil, possa residir a graça da Poesia  
 
Comentário
Isto é poesia; mais: isto é a Poesia, porque consegue criar e transmitir-nos uma estória (uma criação literária, logo, mero fruto de imaginação) que corresponde ao que o Poeta se propõe revelar-nos no título do seu Poema. 

Ao lermos Poesia, se a houver no Poema, ela terá de ser entendida. Não acrediteis em poesias de suspiros ou de exclamações! - que é o muito que por aí anda.

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Texto de Miguel Torga, Coimbra, 16 de abril de 1952
Irremediavelmente, todos os poemas são datáveis. E a posteridade encontra mais perenidade naqueles que simultaneamente testemunham e sugerem. De resto, como poderia o poeta não ser do seu tempo, se ele é sempre a mais alta consciência de um tempo? O poeta não é uma abstração. É um ser real que existe no real.