O brinco da tua orelha
Sempre se vai meneando;
Gostava de dar um beijo
Onde o teu brinco os vai dando.
Tem um topázio doirado
Esse brinco de platina;
Um rubi muito encarnado,
E uma outra pedra fina.
O que eu sofro quando o vejo
Sempre airoso meneando!
Dava tudo por um beijo
Onde o teu brinco os vai dando.
(As Canções de António Boto)
1.António Boto é um poeta maior na nossa
literatura. Inexplicavelmente, é um poeta hoje muito esquecido. Foi um modesto
funcionário público, expulso do seu cargo por alguma imprudência no atendimento
dos cidadãos. Procurou trabalho no Brasil, e aí morreu em 1959, com apenas 62
anos.
O texto lírico que hoje apresentamos - uma Canção - foi retirado das Canções de António Boto, na edição de 1956.
2.A forma mais nobre de Poesia lírica será o Soneto que Sá de Mirando trouxe de Itália (soneto quer dizer pequeno som, em italiano) e consta de uma estrutura fixa de 14 versos, em duas quadras e dois tercetos – como vimos, na semana passada, em “Árvores do Alentejo”. Na literatura portuguesa, são geralmente tidos como grandes mestres do Soneto Luís de Camões, Bocage, Antero de Quental e Florbela Espanca.
3.A Canção que hoje aqui apresentamos faz também parte do género lírico e deve a sua entrada em Portugal a Sá de Miranda. Difere do soneto principalmente pela sua
forma que apresenta só duas estrofes: uma quadra, seguida duma outra estrofe de 8 ou
9 versos.
A quadra expõe um tema, e a estrofe longa (8 ou 9 versos) desenvolve esse mesmo tema que termina com um verso igual ao do final da quadra - como realcei pelo negrito dos versos finais de cada uma das duas estrofes.
4.Predominantemente,
a canção aborda temas de amor – como é aqui o caso - e nisso não difere
do soneto, nem da cantiga, que são as três formas que predominam
na poesia lírica.