terça-feira, 27 de janeiro de 2026

A sintaxe do verbo mandar e outros 

Quando, em pequeno, eu era aluno de Latim, logo no 1.º ano (lá para o fim) traduzíamos textos das cartas familiares de Cícero e muitos textos do De Bello Gallico, de Júlio César.
Nunca mais me esqueci duma das primeiras frases que me surpreenderam: «Caesar iussit pontem fieri». 
 
Na Língua latina, as orações infinitivas têm o sujeito sempre expresso, e em acusativo. Por isso, César não «mandou fazer uma ponte» a fim de que o exército progredisse no terreno, mas «mandou que uma ponte fosse feita», assim: Caesar iussit pontem fieri. [pontem, em acusativo, é sujeito de fieri (ser feita)]. 
 
Em português a Língua permite-nos dizer que «César mandou fazer uma ponte», porque dispomos do infinito pessoal que não existia em Latim. Mas, como em Latim, o verbo mandar seleciona oração infinitiva, e o seu sujeito, se for um pronome pessoal, tem de assumir a forma de complemento, assim: 
 
Eu mandei-te estudar Latim - (-te é sujeito de estudar]
Oração composta
Suj.: eu; predicado: mandei-te estudar Latim; complemento direto: -te estudar Latim
 
-te estudar Latim
Proposição subordinada infinitiva, substantiva
Suj.: te; predicado: estudar Latim; compl. direto: Latim

Esta análise é a mesma de «o amor fez o poeta sofrer» ou de «o amor fê-(l)o sofrer» em que o sujeito da oração infinitiva (ele) toma a forma de complemento. 

sábado, 24 de janeiro de 2026

Ainda a análise da frase “O amor fez o poeta sofrer”

Há uma frase popular que recomenda “no que está bem não se mexe”; e a análise que eu fiz desta oração no blogue precedente não tem alternativa.

Proponho hoje duas orações [estruturalmente iguais a «O amor fez o poeta sofrer»]

1.- Dizem que a terra escraviza (Agustina, A Sibila, p. 76)
Oração composta
Suj.: indeterminado (eles); predicado: dizem que a terra escraviza; compl. direto: que a terra escraviza.

[Dizem não é oração: falta-lhe o compl. direto. Por isso dizemos há dezenas de anos que não há orações subordinantes. Os verbos transitivos NUNCA podem perder o contacto com os seus complementos, sejam eles nomes (substantivos) ou frases (que a terra escraviza).

As proposições (orações subordinadas) são parte de UMA ORAÇÃO COMPOSTA, e nela desempenham função sintática (frequentemente são sujeito ou complemento direto). «que a terra escraviza» é complemento direto de DIZEM. A oração (que a terra escraviza) foi compl. direto na oração composta – mas isto não impede que tenha análise própria com o nome de PROPOSIÇÃO.

- que a terra escraviza
Proposição subordinada integrante, substantiva
Suj.: a terra; predicado: escraviza


2.- Terra que dá desta fruta é boa terra. (Camilo, Eusébio Macário, p.34)
Oração composta
Suj.: terra que dá desta fruta; predicado: é boa terra

- As proposições subordinadas relativas (que dá desta fruta) são adjetivas. Logo, na análise sintática elas ocupam a posição própria dos adjetivos. Por isso, o sujeito desta oração é «terra que dá desta fruta».

- que dá desta fruta
Proposição subordinada relativa, adjetiva.
Suj.: que (antec.: terra); predicado: dá desta fruta; compl direto preposicionado: desta fruta.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026


O amor fez o poeta sofrer

Um colega apresentou dúvidas na análise sintática da frase: «O amor fez o poeta sofrer.». 

A sua análise foi: 

(1) «[O amor fez] oração subordinante;

2. [o poeta sofrer] oração subordinada completiva infinitiva.»

Ora, isto não faz sentido nenhum!

De seguida, ainda acrescenta: se a frase fosse «O amor fez o poeta infeliz» teríamos um complemento direto («o poeta») e um predicativo do complemento direto («infeliz»). Nada disto está certo!

Frase 1

1.- O amor fez o poeta sofrer

Oração composta 
Suj.: o amor; predicado: fez o poeta sofrer; compl. direto: o poeta sofrer


- o poeta sofrer 
Proposição completiva, infinitiva, substantiva

Suj.: o poeta; predicado: sofrer

«O amor fez» não é oração. O compl. direto tem de estar expresso por um nome ou por uma oração subordinada substantiva, assim: o amor fez o poeta sofrer. Estamos, pois, perante  UMA oração composta. Não existem orações subordinantes.

Frase 2

O Colega admite ainda uma outra hipótese: a oração

 «O amor fez o poeta infeliz» que analisa assim: complemento direto («o poeta») e um predicativo do complemento direto («infeliz»). Não! 

O amor não fez o poeta, mas fez infeliz…, tonou infeliz…, fez ficar infeliz o poeta. E a análise é: Suj.: o amor; predicado: fez infeliz o poeta; compl. direto: o poeta.

O verbo fazer, aqui, não é verbo PLENO, mas SEMICOPULATIVO, cfr. textos deste mesmo blogue em 1, 15 e 21 do passado mês de maio.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

  

   ORAÇÕES INFINITIVAS - PROPOSIÇÕES ADVERBIAIS GERUNDIVAS -   PERÍFRASES

1 - Ricardo estava em Belém, quando eles desembarcaram; e, ouvindo‑os falar inglês, ofereceu‑lhes o seu préstimo, que o viajante aceitou agradavelmente. (Camilo, O Demónio do Ouro, p. 104)

Ricardo estava em Belém quando eles (Johnson Fowler, que desfalcou a empresa, mudou de nome, e está agora acompanhado por amante francesa

Ricardo estava em Belém, quando eles desembarcaram
Oração composta
Suj.: Ricardo; predicado: estava em Belém; adjunto adverbial de tempo: quando eles desembarcaram.

Quando eles desembarcaram
Proposição adverbial relativa livre
Suj.: eles; predicado: desembarcaram

E, ouvindo-os falar, ofereceu-lhes o seu préstimo
Oração coordenada copulativa
Suj.: ele (Ricardo); predicado: ofereceu-lhes o seu préstimo; complemento direto: o seu préstimo; adjunto adverbial de tempo ou de causa: ouvindo-os falar [quando os ouviu – porque os ouviu falar].


Ouvindo-os falar
Proposição adverbial gerundiva de tempo ou causa
Suj. ele (Ricardo); predicado: ouvindo-os falar; complemento direto: -os falar (eles falar)


- os falar
Oração infinitiva substantiva
Suj.: os (eles: Johnson Fowler e a amante); predicado: falar

2 - Maria, imóvel e resignada, começou a falar (Agustina, Sibila, 37)
Oração simples
Suj.: Maria; predicado: começou a falar; predicativos do sujeito:  imóvel e resignada.

Perífrase: acontece quando dois ou mais verbos constituem uma unidade sintática, um predicado:  têm ambos o mesmo sujeito, e o 2.º verbo não é complemento do primeiro.
Por isso, ouvindo-os falar não é perífrase, porque quem ouve não é quem fala;  
Mas, na frase 2, começou a falar é perífrase, porque os dois verbos têm o mesmo sujeito.

3 - Não te posso dizer mais nada a respeito dessa mulher (Camilo, O Demónio do Ouro, 105)

Oração simples
Suj.: eu; predicado: não te posso dizer mais nada a respeito desse mulher; compl. direto:  mais nada; compl. indireto: -te; complemento preposicionado de tema ou assunto: a respeito dessa mulher
.

 Posso dizer é perífrase – porque posso e dizer têm o mesmo sujeito.

[A respeito delocução preposicionada: sobre, acerca de…; introduz complementos preposicionados de tema ou assunto]