Nesta altura, em que, celebramos Camões, é frequente que se oiçam perguntas de rua: então, o senhor leu os Lusíadas?
E a resposta vai-se repetindo: …sim, desde pequeno…havia esse livro lá em casa…depois veio a escola, e, no meu 5.º ano (atual 9.º) demos isso no Liceu. Além disso, falava-se… os amigos uns com os outros íamos falando…
Infelizmente, é este o modo generalizado do conhecimento do Poema. Mas não só. Mesmo em estudos apresentados como científicos, dizem-se muitas vezes mais coisas dsobre estudos de outros autores do que propriamente do Poema. Os Lusíadas são mesmo desconhecidos, e, também, maltratados.
Como professor de Português, tentei que os meus alunos ficassem com algumas referências concretas do Poema, de modo a que, vida fora, se fossem lembrando e, sobretudo, retomando. Para isso alongava-me na análise de algumas estâncias, ao ponto de conseguir que alguns alunos as decorassem… Deste esforço alguma coisa ficou – porque ainda há dias uma das minhas alunas dos anos 70, como outras, me repetiu a estrofe V-3, qua aqui repito, com o comentário com que sempre a acompanhei. A armada está a sair de Lisboa (Belém) a caminho da Índia:
Já a vista, pouco e pouco se desterraDaqueles pátrios montes que ficavam;Ficava o caro Tejo e a fresca serraDe Sintra, e nela os olhos se alongavam.Ficava-nos também na amada terraO coração que as mágoas lá deixavam;E já depois que toda se escondeuNão vimos mais, enfim, que mar e céu.
Assim comentava eu esta estrofe:
Esta é uma das mais belas estrofes dos Lusíadas. Notemos a musicalidade (assonância) dasvogais abertas (é e á), amplas, a darem a ideia de espaços muito vaaastos. Sensibiliza-nos a enumeração das coisas que ficavam: os pátrios montes, o caro Tejo, a fresca serra de Sintra, a amada terra, o coração. O olhar dos navegantes teima em agarrar-se, em ficar (verbo é repetido nos versos 2, 3 e 5). Finalmente, nos versos 7 e 8 a armada navega já sobre o mar vaaasto, sem quaisquer pontos de referência: não vimos mais, enfim, que mar e céu…
Ao deixar o ensino, decidi abrir a todos os falantes da Língua portuguesa o acesso à leitura do Poema –vertendo o texto original para a linguagem atual, mas mantendo ao seu lado a versão original. Durante 13 anos, a par do estudo das estruturas sintáticas, dediquei-me à análise e versão das 1102 estrofes, ao mesmo tempo que ia anexando informação nova que nesses anos foi sendo publicada. Destaco publicações dos Professores Alexandra Pelúcia, José Manuel Garcia, João Paulo Oliveira e Costa, Roger Crowley e Rebelo Gonçalves. Assim, o Poema está disponível com uma leitura fácil, e enriquecido com vasta informação histórica relativa aos factos nele narrados.
A edição está no Google, e o acesso à sua leitura é livre até à página 77, Canto II- estrofe 87. Basta para isso clicar no link em baixo.
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