quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Os pronomes pessoais tomam a forma de complemento
quando são sujeito de orações infinitivas   

 Retirei de Machado de Assis, Quincas Borga, o texto seguinte:

— O senhor para onde vai? perguntou Carlos Maria ao Freitas.
Freitas calculou que ele iria a alguma visita para os lados de São Clemente, e quis
acompanhá-lo.
— Vou até o fim da praia, disse.
— Eu volto para trás, tornou o outro.

CAPÍTULO XXXIII

1.       Rubião viu-os ir…

Nesta frase ttão pequenina temos 1 (uma) oração, que é composta
Suj.: Rubião; predicado: viu-os ir; complemento direto: -os ir [Rubião viu eles ir].

     - os ir
Proposição infinitiva substantiva
Suj.: -os; predicado: ir.
 
[Esta análise é assim, e não pode ser de qualquer outro modo].
O que é que Rubião viu? -  viu eles ir.

 [Eles ir é complemento direto do verbo ver. O sujeito das orações infinitivas toma a forma de complemento, como veremos já na frase seguinte]

2.       O Rubião viu-me sair de casa para a praia [viu *eu sair)
Oração composta
Suj.: o Rubião; predicado: viu-me sair de casa para a praia
 

[O que é que o Rubião viu? Viu ME SAIR DA CASA PARA A PRAIA]; Complemento direto: me sair de casa para a praia 

- me sair de casa para a praia
Proposição infinitiva, substantiva
Suj.: me; predicado: sair de casa para a praia; complemento adverbial de lugar donde: de casa; complemento adverbial de lugar para onde: para a praia.

Porque é que viu-me e sair não formam um só predicado? – porque vir e sair têm sujeitos diferentes, assim: Rubião viu  eu (me) sair. O mesmo acontece na oração seguinte. assim:

3.       Ouvi-te dizer que a sintaxe é difícil
Oração composta
Suj.: eu; predicado: ouvi-te dizer que a sintaxe é difícil; complemento direto: te dizer que a sintaxe é difícil
 
-te dizer que a sintaxe é difícil
Proposição completiva, infinitiva, substantiva
Suj.: -te; predicado: dizer que a sintaxe é difícil, complemento direto: que a sintaxe é difícil

- que a sintaxe é difícil
Proposição integrante, substantiva
Suj.: a sintaxe; predicado: é difícil.

Em conversa com um Professor de larga experiência no ensino da Língua portuguesa, confessou-me ele que, de facto, assim é a análise sintática, e que assim deveria ser ensinada e praticada, mas que muitos Colegas, que nunca estudaram Latim, não estão preparados para assim a ensinarem. Lamentei, e lamento profundamente. É pela SINTAXE que se chega à LITERACIA da Língua portuguesa.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

 O valor semântico dos adjuntos
 o caminho mais adequado para a Literacia.

Não basta que, na análise sintática, um aluno reconheça a presença de adjuntos – como agora dá apenas conta da presença de modificadores. No ensino da Língua portuguesa, deveria ser obrigatória a classificação semântica de qualquer adjunto, assim: adjunto adverbial de tempo, de lugar (onde, donde, para onde, por onde) de causa, de fim, ... de modo, de origem ou procedência, de matéria, de assunto ou matéria tratada, de companhia, de instrumento, de quantidade, de valor ou preço, etc…. Será pela aprendizagem do valor semântico que os alunos atingirão a LITERACIA - o nível de conhecimento que os levará à apreensão fácil  do sentido das suas leituras. E, também, porque quem quiser estudar Latim, deparar-se-á com modos de expressão própria de cada um dos diversos adjuntos.  

Nas muitas dezenas de frases que temos analisadas neste blogue deparámos já com todos estes adjuntos ou complementos. Aqui, TODOS, TODOS, TODOS podemos aprender sintaxe de modo fácil....

Análise

Na capela de Nossa Senhora do Amparo, padroeira da Casa Grande, viram barrela pela primeira vez toalhas e frontais (Aquilino, A Casa Grande Romarigães, p. 84)

Frontais: peças, em geral de seda ou linho, que ornamentam a frente dos altares.

Suj.: toalhas e frontais; predicado: viram barrela pela primeira vez; compl. direto: barrela; adjunto adverbial de tempo: pela primeira vez; adjunto adverbial de lugar onde: na capela de N. Senhora do Amparo, padroeira da Casa Grande.

ANOTAÇÕES

1.       Nossa Senhora do Amparo, padroeira da Casa Grande

Algumas gramáticas classificam o 2º sintagma como modificador restritivo do nome apositivo. Está errada tal classificação.

Os apostos não são modificadores – mas, apenas, nomes ou grupos nominais equivalentes, em que o segundo, entre vírgulas, explica, identifica ou equivale ao primeiro, podendo mesmo trocar com ele a sua posição na frase. Os Apostos poderão substituir-se um pelo outro, NÃO SÃO MODIFICADORES.

2.Toalhas e frontais viram barrela pela primeira vez.

Esta frase está correta, e é gramatical.

Mas Aquilino quis dizer-nos onde isto aconteceu, adicionando ou juntando a esta frase um sintagma de valor locativo (na capela de Nossa Senhora do Amparo, padroeira…). Aos sintagmas adicionados, não selecionados pela estrutura da frase, dá-se o nome de ADJUNTOS.

3.      Pela primeira vez: adjunto adverbial de tempo.

Este sintagma não é imposto pela estrutura da frase. Se o retirarmos, a frase manter-se-á gramatical, correta. Os adjuntos (sintagmas não selecionados) são opcionais. 

Preferem algumas gramáticas dar-lhes o nome de modificadores. Não vemos qualquer justificação para tal designação. Antes de mais, e de facto, não modificam nada: são sintagmas adicionados, juntados opcionalmente às frases – logo, são ADJUNTOS.

Em Sintaxe, devemos ter em consideração o valor semântico dos termos que usamos. Adjunto e modificador NÂO são termos equivalentes.

 

 

 

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

  

O prazo de dois meses: os apostos especificativos
Sintaxe do verbo ir
Perífrase
O verbo continuar tem duas caras: é pleno e é semicopulativo

Findo o prazo de dois meses, Augusto foi para Coimbra continuar a sua formatura... (Camilo, A Filha do Arcediago, p.162)

Oração composta

Suj.: Augusto; predicado: foi para Coimbra; complemento adverbial de lugar para onde: para Cimbra; adjunto adverbial de fim: continuar a sua formatura; adjunto adverbial de tempo: findo o prazo de dois meses.

1. O verbo ir, quando exprime movimento (quando alguém vai para um lugar) não forma perífrase. O Augusto foi para Coimbra com a finalidade de continuar os seus estudos. Mas se vamos estudar (o verbo ir será auxiliar de perífrase).

Perífrase é uma combinação sintática em que dois ou mais verbos (auxiliar e auxiliado ou principal) se juntam para a formação de um só núcleo de predicado. Mas...os verbos da perífrase têm de ter o mesmo sujeito e o segundo não pode ser complemento do primeiro. Assim: eu quero comprar um livro: suj.: eu; predicado: quero comprar um livro; compl. direto: comprar um livro [Quero comprar não é perífrase, porque o segundo verbo é complemento do primeirio; mas em vamos estudar: a análise é: Suj.: nós; predicado: vamos estudar. 

Voltaremos às perífrases já na próxima publicação.

2. Prazo de dois meses:  de dois meses é um aposto especificativo ao nome prazo. Nada tem a ver com complementos, nem, muito menos com modificadores. [dois meses foi o prazo].

Comparemos, por exemplo, com “o problema da droga” (a droga é um aposto – a droga é um problema); o jornal Diário de Notícias… a serra da Estrela; a febre do ouro; o rio Tejo; a praça Camões ou de Camões; o número cinco - [todos estes sintagmas são apostos especificativos - Nos apostos especificativos, o 1.º nome funciona como um predicado do 2.o: o prazo de dois meses: dois meses foi o prazo; a droga é um problema - e a Estrela é uma serra, cinco é um número, etc. ]

3 - continuar a sua formatura
 - O verbo continuar, com o sentido de prosseguir, é verbo pleno (transitivo);
mas o mesmo verbo, com o sentido de permanecer, manter-se, ficar…é semicopulativo, e o seu comportamento sintático é igual ao dos copulativos, assim:

 Augusto foi para Coimbra porque a sua formatura continuava incompleta

Oração composta

Suj.: Augusto; predicado: foi para Coimbra; complemento adverbial de lugar para onde: para Coimbra; adjunto adverbial de causa: porque a sua formatura continuava incompleta

- porque a sua formatura continuava incompleta
Proposição subordinada adverbial, causal
Suj.: a sua formatura; predicado: continuava incompleta