terça-feira, 27 de maio de 2025

 

Análise sintática dos versos 1 e 2

d’Os Lusíadas III-123

A Sintaxe é a ciência do sentido da Frase

Na estrofe III-123 d'Os Lusíadas. Vasco da Gama está a contar ao rei de Melinde o episódio de Inês de Castro. E é neste primeiro verso cruel que o Gama declara ao Samorim que o Rei D. Afonso IV determina tirar Inês ao mundo. 

[ao Samorim: compl. indireto; ao mundo: compl. adverbial de lugar donde, ou de origem e proveniência].

III - 123 

«Tirar Inês ao mundo determina
Por lhe tirar o filho que tem preso…

(D. Afonso IV) decide matar Inês (tirá-la ao mundo) a fim de libertar seu filho (o futuro rei D. Pedro) que ela tem preso (pelo amor)

Determina tirar: grupo verbal que não forma perífrase, porque o segundo verbo (tirar) é compl. direto do primeiro (determina). Este assunto da perífrase tratámo-lo no texto anterior (21 de maio).

No verso tirar Inês ao mundo não há qualquer complemento indireto, cujo sentido é de atribuição, como seria, por exemplo: desejamos à Ucrânia (ao mundo) a recuperação da sua paz

Neste verso, tirar Inês ao mundo, ou do mundo, estamos perante um complemento adverbial de lugar donde ou de origem, selecionado (pedido) pelo verbo tirar (tirar uma qualquer coisa ou uma pessoa dum lado para outro).

Análise sintática dos versos 1 e 2 de III-123 d’Os Lusíadas

«Tirar Inês ao mundo determina
Por lhe tirar o filho que tem preso… 
 
Oração composta
Suj.: ele (D. Afonso IV); predicado: determina tirar Inês ao mundo; complemento direto: tirar Inês ao mundo; adjunto adverbial de fim: por lhe tirar o filho que tem preso.  
 
- tirar Inês ao mundo
Proposição subordinada completiva, substantiva
Suj.: ele (o rei); predicado: tirar Inês ao mundo; compl. direto: Inês; complemento adverbial de lugar donde: ao mundo 
 
- por lhe tirar o filho que tem preso
Proposição subordinada adverbial, final
Suj.: ele (o rei); predicado: lhe tirar o filho que tem preso; compl. direto: o filho que tem preso; complemento indireto de posse: lhe (o filho dele, o seu filho, que ela tem preso 
 
- que tem preso
Proposição subordinada relativa adjetiva
Suj.: ela; predicado: tem o qual preso; compl. direto: que (o qual filho); predicativo do compl. direto: preso.

Não é a forma (ao mundo) que determina a sua função sintática, mas o contexto ou o sentido. Um mesmo sintagma (ao mundo) pode desempenhar funções várias, condicionadas pelo contexto. Desejar a paz ao mundo (compl. indireto); tirar Inês ao mundo (compl. adverbial de lugar donde – selecionado pelo verbo tirar).

 

 

 

sexta-feira, 23 de maio de 2025

 

 

Uma análise evidente,

…mas talvez inesperada!

As orações infinitivas

 

O texto que segue foi retirado do romance de Machado de Assis, “Quincas Borba”

 

— O senhor para onde vai? perguntou Carlos Maria ao Freitas.

Freitas calculou que ele iria a alguma visita para os lados de São Clemente, e quis acompanhá-lo.

— Vou até o fim da praia, disse.

— Eu volto para trás, tornou o outro.

 

CAPÍTULO XXXIII

Rubião viu-os ir…

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Análise sintática desta última oração:

Rubião viu-os ir

Oração composta

 

O sujeito desta oração é Rubião; o predicado é viu-os ir.

Pensemos agora uns segundos: Rubião viu o quê?viu os (Carlos Maria e o Freitas) ir.

 

Voltemos à frase:

Suj.: Rubião; predicado: viu-os ir; complemento direto -os ir [quem vai são eles, Carlos e Freitas]. A forma “os” é de complemento. Não dizemos eu vi *eles, mas vi-os.

 

-Os (Carlos Maria e o Freitas) ir

Proposição subordinada infinitiva, substantiva

Suj.: os; predicado: ir

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Quem estudou Latim sabe que o sujeito das orações infinitivas toma a forma de complemento; o mesmo acontece em Português: o sujeito das orações infinitivas, substantivas, toma a forma de complemento.

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Agora já acharão natural a análise da frase seguinte;

 

O João viu-me sair de casa

Oração composta

Suj.: o João; predicado: viu-me sair de casa; compl. direto: -me sair de casa.[O João viu…o quê? – me (*eu) sair

 

- me sair de casa

Proposição subordinada infinitiva, substantiva

Suj.: -me; predicado: sair de casa; complemento adverbial de lugar donde: de casa.

 

Assim, também:

Estive com uma amiga; ouvi-lhe falar em política (*ela falar em política)

 – Os sujeitos das orações infinitivas, na terceira pessoa, assumem a forma de complemento, como em latim. Por isso, os pronomes pessoais nesta situação tomam a forma de complemento, assim: (vi-os ou vi-a entrar na escola);  ouvi-lhe cantar um Fado

 

Eu ouvi - *ela falar (errado) – eu ouvi-a falar (certo) – este -a é pronome pessoal (morfologia) e é sujeito (função sintática).

ouvi- *ele falar (errado) – ouvi-o falar e ouvi-lhe falar (certo). Estes  o  e este -lhe são sujeitos do verbo falar.

 

E porque é que o predicado não é ouvir falar? - porque ouvir e falar têm sujeitos próprios… Logo não formam perífrase… É assim a LÍNGUA PORTUGUESA!

quarta-feira, 21 de maio de 2025

 

VERBOS SEMICOPULATIVOS

O verbo eleger


Com duas eleições muito recentes, a do Primeiro Ministro e a do Papa, pareceu-me oportuno demonstrar a sintaxe do verbo eleger que faz parte da lista de verbos semicopulativos, que publiquei neste meu blogue no dia 1 deste mês de maio.

Repetindo: semicopulativo é um verbo que só predica copulado a um atributo; o atributo não é predicativo: faz parte do sintagma verbal do predicado.

*O povo elegeu o Joaquim (???) – que cargo ou função terá atribuído o povo ao Joaquim? – Ninguém sabe. O verbo eleger, que é semicopulativo, tem de arrastar consigo o atributo que designa o nome do cargo ou função.

O povo elegeu o Joaquim presidente da Junta

Suj.: o povo; predicado: elegeu o Joaquim Presidente da Junta;   compl. direto: o Joaquim - Voz passiva: O Joaquim foi eleito Presidente da Junta pelo Povo.

Estarua errada a análise: suj.: o povo; predicado: elegeu o Joaquim Presidente da Junta;  compl. direto: o Joquim; *predicativo do compl. direto:Presidente da Junta. 
Presidente da Junta faz parte do sintagma verbal, pertence ao predicado, é predicado.

Vejamos isto mesmo na Literatura:

1. E, subitamente, à voz dum, que teriam eleito por maioral, levantavam em rabanada, direitos à mata… (Aquilino, A Casa Grande de Romarigães, p, 200).

-que teriam eleito por maioral  
Proposição subordinada relativa adjetiva 

Suj.: eles (os pavões); predicado: teriam eleito por maioral; complemento direto: que (antecedente: um pavão) - [eleger por maioral ou eleger maioral: predicado]

2. A guerrilha … chegou à porta do morgado de Barrimau, e a clamorosos brados, elegeram-no general. (Camilo Castelo Branco, A Brasileira de Prazins, p. 34) - 

e a clamorosos brados, elegeram-no general  
Oração coordenada copulativa

Suj.: eles, predicado: elegeram-no general; compl. direto: (n)o (o morgado de Barrimau): adjunto adverbial de modo: a clamorosos brados

3. Quando meu pai foi eleito deputado… ele veio também… (Machado de Assis, Dom Casmurro…p. 6)

Oração composta
Suj.: ele; predicado: veio também; adjunto adverbial de tempo: quando meu pai foi eleito deputado (na altura em que…)

- quando é advérbio relativo, e introduz proposições relativas livres.

Quando meu pai foi eleito deputado
Proposição subordinada adverbial, relativa livre

Suj.: meu pai; predicado: foi eleito deputado; adjunto adverbial de tempo: quando (na altura em que…; no tempo em que ele veio…).

Temos de ter em atenção que, na forma passiva, o atributo nominal (deputado) faz parte do sintagma verbal que é predicado. Foi eleito deputado é predicado, só predicado – como, na voz ativa das frases 1 e 2, o predicado é teriam eleito por maioral+compl. direto e, na 2, elegeram general+compl. direto.

quinta-feira, 15 de maio de 2025

 

Um texto de Camilo Castelo Branco

Chamar: verbo semicopulativo

- lhe: compl. direto

- quando: advérbio relativo

 

As filhas de Honorata, quando, entre si, falavam da mãe, chamavam-lhe “aquela desavergonhada” (Camilo, A Brasileira de Prazins, p. 62)
 
Oração composta
Suj.: as filhas de Honorata; predicado: chamavam-lhe “aquela desavergonhada”; complemento direto: -lhe; adjunto adverbial de tempo: quando entre si falavam da mãe.
 
- lhe, complemento direto? Sim. Vejam a forma passiva da frase:
ela era chamada “aquela desavergonhada” pelas filhas de Honorata.
 
Suj.: ela; predicado: era chamada “aquela desavergonhada”; complemento de agente da passiva: pelas filhas de Honorata.
 
- [O compl. direto da voz ativa (-lhe) é sujeito na voz passiva (ela)].
- [aquela desavergonhada não é predicativo do sujeito, mas predicado, exatamente como nos verbos copulativos].
 
 
Nota: o verbo chamar é semicopulativo; mas também é pleno, se  não for portador de qualquer aytributo, assim: chamo o aluno e ele vem;
mas, se chamo preguiçoso um aluno, o verbo tornou-se portador dum atributo (é semicopulativo) - e é o atributo que passa a ser o constituinte mais relevante do predicado, o seu núcleo semântico.
 
- quando entre si falavam da mãe
Proposição subordinada adverbial, relativa livre
Suj.: elas; predicado: falavam da mãe; complemento verbal de tema ou assunto: da mãe; adjunto adverbial de relacionamento: entre si; adjunto adverbial de tempo: quando (na altura em que…nas ocasiões em que…)
 
 
Quando não é conjunção temporal, mas advérbio relativo; significa: na altura em que, nas ocasiões em que. Por isso, introduz proposições adverbiais relativas livres, visto não ter antecedente expresso, mas implícito. 
 
Quando, onde e como, porque têm antcedente implícito, são advérbios relativos. 
 

As conjunções não têm nas frases qualquer conteúdo semântico; apenas ligam entre si as diversas unidades de sentido da frase (vejam o caso das conjunções integrantes, das cordenadas, das condicionais, das concessivas...)

 

 

segunda-feira, 12 de maio de 2025

 

COMPLEMENTOS OBLÍQUOS?

Vão antes dar uma curva...

 

Ontem, o Ciberdúvidas foi a uma escola e fez a análise sintática da frase: “Os amigos do pai pegavam-lhe ao colo”.
Ao lermos esta frase, logo começámos a imaginar uma roda de amigos em que todos acarinhavam a criança que do colo do pai ia passando para os braços dos outros…

- pegavam-lhe, em quem? – Atribuamos à criança o nome de Pedrinho. Os amigos do pai pegavam o Pedrinho ao colo.
Feito isto, logo vemos que o -lhe (ou ele, ou –(n)o) só pode ser complemento direto.

Demonstremos, porque a análise sintática não se fundamenta em palpites…
Todos sabemos que as relações sintáticas entre os diversos sintagmas duma frase, mantêm entre si as mesmas dependências, tanto na voz ativa como na passiva. Ponhamos, então, a frase na voz passiva:
Ele (o Pedrinho, -lhe) era pegado ao colo pelos amigos do pai.

É de todos sabido que o sujeito da voz passiva é complemento direto na voz ativa. Para os alunos do 2.º ciclo, isto poderá fazer alguma confusão; mas os do 3.º ciclo entendem isto perfeitamente.

Se um professor não é capaz de identificar o complemento direto duma frase, vendo nela um complemento oblíquo, deixe os oblíquos e vá dar uma curva…. Os alunos agradeceriam. 

A Academia das Ciências, o Ministério da Educação e a APP são culpados disto, por não quererem ver…À sua inação se deve esta vergonha no ensino da Língua portuguesa que se vem arrastando há mais de 20 anos.

quinta-feira, 1 de maio de 2025

 

VERBOS SEMICOPULATIVOS

ou ATRIBUTIVOS: achar, considerar, classificar, denominar, chamar, julgar.

 

1.Maria Rosa achava o Nabasco doido (Agustina, A Ronda do Noite, p.71)

Oração simples

Suj.: Maria Rosa; predicado: achava o Nabasco doido; complemento direto: o Nabasco.

Maria Rosa não achou o Nabasco em parte nenhuma, porque ele não estava perdido. O Nabasco estava junto dela, e ela achou-o doido (teve-o como doido, considerou-o doido).

 

A Língua mostra-nos que em achar uma moeda alguém acha mesmo (verbo pleno); em achar alguém doido o verbo alterou o significado que tinha; ligado a um atributo, tornou-se predicado atributivo ou semicopulativo (achar doido)

 

Semicopulativos são verbos que deixaram de ser PLENOS (achar uma moeda) - porque o seu sujeito se ligou a um atributo (achar doido).

Assim, o mesmo verbo ACHAR, por exemplo, pode ser transitivo (achar coisas perdidas) ou semicopulativo: achar bonito, achar atrevido, achar alegre, achar estupidez…

 

2. Acho muito simpática a professora de Português

Oração simples

Suj.: eu; predicado: acho muito simpática a professora de Português; compl. direto: a professora de Português.

 

Acho muito simpática é predicado: é o sintagma verbal da frase. A função de muito simpática é de predicado, exatamente como os atributos dos verbos copulativos.

Os verbos semicopulativos funcionam como os copulativos. 

 

3. Os médicos da terra julgavam-no doente irremediável (Camilo, A Mulher Fatal, 156)

Oração simples

Suj.: os médicos da terra; predicado: julgavam-no doente irremediável; compl. direto: (n)o.

 

Julgar, achar, considerar, ter por…todos estes verbos se poderiam aplicar nesta frase, porque o constituinte principal dela é o atributo doente, assim:

achavam-no doente irremediável, consideravam-no doente…, tinham-no por doente…

 

E a voz passiva mostra-nos que o atributo doente faz parte do predicado, é predicado, assim:

Pelos médicos da terra, ele (Carlos Pereira) era julgado doente irremediável.

 

Suj.: ele (Carlos Pereira); predicado: era julgado doente irremediável; complemento de agente da voz passiva: pelos médicos da terra.

 

Outros verbos semicopulativos ou atributivos

achar; chamar, classificar, considerar, deixar, eleger, julgar, nomear, reputar, ter na conta de, ter por….

Quando veiculam atributos, estes fazem parte do predicado.