sexta-feira, 25 de abril de 2025

  

VERBOS ATRIBUTIVOS II

Verbos semicopulativos ou atributivos são verbos que deixam de ser plenos devido à presença de atributos que lhes alteram o valor semântico (o significado). Já tivemos um primeiro estudo destes verbos em 11 deste mês. Mas o tema é de extrema importância na análise sintática. Por isso voltamos hoje a ele.

1  O António chama a Maria

 Nesta frase, o António chama mesmo!  - e a Maria vem ou não

 Análise: suj.: o António; predicado: chama a Maria; compl. direto: a Maria

 

2  -  O António chamou a Maria parva       

 A análise que se faz a esta frase é:

Suj.: o António; predicado: chamou a Mária parva; compl. direto: a Maria; *predicativo do compl. direto: parva.    

Esta análise está errada porque o verbo CHAMAR não é PLENO como na frase 1. Aqui, ninguém chama a Maria, mas chama parva a Maria.

Demonstração:

E a Língua mostra-nos isto claramente, se pusermos a frase na voz passiva, assim:

Voz passiva: a Maria foi chamada parva pelo António

O sintagma verbal que aqui, na voz passiva, é predicado (foi chamada parva) inclui o atributo parva – porque ele faz parte do predicado tanto na voz ativa como na passiva.

 Teste

Eu considero o meu colega Pedro

(verbo pleno – considero mesmo! Respeito-o; gosto de estar com ele]

Eu considero grosseiro o meu colega Pedro (aqui já não o considero!) - o verbo considerar é o mesmo. Mas...o atributo a que se ligou roubou-lhe a qualidade de pleno...

Suj.: eu; predicado: considero grosseiro o meu amigo Pedro; compl. direto: o meu amigo Pedro.

Os verbos, quando deixam de ser plenos, devido ao facto de se copularem com atributos, tornam-se atributivos ou semicopulativos  – e o núcleo semântico do seu predicado é o atributo. Por isso, o predicado que eles formam inclui o sintagma colocado à sua direita – como se torna evidente na formação da voz passiva, assim:

O meu colega Pedro é considerado grosseiro por mim

A função de grosseiro é a de predicado; grosseiro é o núcleo semântico do predicado.

 

O atributo dos verbos semicopulativos nunca pode ser predicativo do complemento direto na voz ativa, nem predicativo do sujeito na voz passiva: é sempre predicado, como nos verbos copulativos


 

terça-feira, 22 de abril de 2025

 

Predicativos

Predicativos adjetivais e preposicionados (COM, SEM, DE)

1.Laura, com um ataque de riso, balouçava-se no canapé. (V. Nemésio, Mau Tempo no Canal, 206)

Desta oração faz parte um atributo preposicionado: com um ataque de riso. A frase resulta, assim, de duas predicações sobre Laura.

Uma, a principal, é o predicado (balouçava-se no canapé); a outra, secundária, é complemento predicativo do sujeito, informação opcional sobre o sujeito.

Com um ataque de riso: é um atributo preposicionado, não selecionado. Por isso, este atributo preposicionado pode ser complemento predicativo do sujeito 

Os atributos preposicionados, habitualmente, são pedidos ou selecionados por qualquer palavra lexical, sobretudo verbos, como em “O Luís Rola rilha a côdea de broa com a dentuça alva de Lobo”.

O verbo rilhar seleciona atributo preposicionado como complemento adverbial de meio ou instrumento. 

2. Do interior de um pardieiro saiu‑lhe ao encontro uma rapariga do povo, magra, remendada e com um rosto que denotava aflição. (Júlio Dinis, As Pupilas…, 166).

Ao encontro de (alguém): locução prepositiva: ir na direção de alguém; Denotar: mostrar, dar sinais de… ; Pardieiro: casa tosca, pobre

Oração composta
Suj.: uma rapariga do povo; predicado: saiu-lhe ao encontro; complemento indireto: -lhe; adjunto adverbial de lugar donde (saiu): do interior dum pardieiro, predicativos do sujeito: magra, remendada e com um rosto que denotava aflição.

[magra e remendada: atributos adjetivais; com um rosto…: atributo preposicionado - [3 predicativos do sujeito 
 
Que denotava aflição 
Proposição subordinada relativa adjetiva.  
Suj.: que (antec.: rosto); predicado: denotava aflição; compl. direto: aflição. 

As orações relativas (que denotava aflição) são equivalentes a adjetivos. Por isso, na análise sintática as orações relativas devem mantr-se unidas ao seu antecedente, como qualquer outro adjetivo. 

Seguidamente, faz-se a sua análise como proposições.

Proposição é o nome que alguns autores dão – e eu concordo com eles – a orações subordinadas que cumpriram função sintática na oração composta de que elas fazem parte.

3. Zacaria abriu uma nova garrafa de cerveja e bebeu, sem nunca mais falar (Mia Couto, Jesusalém, 251).

Oração composta

Suj.: Zacaria; predicado: abriu uma nova garrafa de cerveja; compl. direto.: uma nova garrafa de cerveja 

e bebeu, sem nunca mais falar

Oração coordenada copulativa sindética 
Suj.: ele (Zacaria); predicado: bebeu, sem nunca mais falar; predicativo do sujeito: sem nunca mais falar

Suponhamos que em vez de  sem nunca mais falar, Mia Couto teria escrito calado, assim: E bebeu calado. Calado seria um adjetivo com a função de predicativo do sujeito - exatamente como o atributo verbal preposicionado sem nunca mais falar.

[As preposições com e sem, quando não selecionadas, iniciam sintagmas em função predicativa]. - Sem nunca mais falar, atributo verbal preposicionado, desempenha aqui a função de predicativo do sujeito.

Vi ontem, muito alegre, a tua prima Joana 
Suj.: eu; predicado: vi ontem a tua prima Joana; compl. direto: a tua prima Joana; adjunto adverbial de tempo: ontem; predicativo do complemento direto: muito alegre – muito alegre: (predicativo do compl. direto)]

Vi o teu premo sem chapéu e de calções de ganga
Suj.: eu; predicado: vi o teu primo; compl. direto: o teu primo;
complementos predicativos do complemento direto: sem chapéu e de calções de ganga

sexta-feira, 11 de abril de 2025

 

Verbos atributivos I 

 
Ser, estar e parecer: estes verbos são sempre copulativos e atributivos – o que não quer dizer que não haja outros verbos atributivos. Mas há! – e é a própria Língua que no-los demonstra. 
Lamentavelmente, os gramáticos deixaram-se dominar pela ideia errada de que só os verbos copulativos é que eram atributivos. Mas não.. 
 
Façamos a análise seguinte:
 
1.Eu achei uma chave junto de minha casa
Oração simples 
Suj.: eu; predicado: achei uma chave; compl. direto: uma chave; adjunto adverbial de lugar onde: junto de minha casa.
 
2.Ao ir para a Escola, achei a manhã muito fria.
Oração simples
Suj.: eu; predicado: achei a manhã muito fria; compl. direto: a manhã; adjunto adverbial de tempo: ao ir para a escola.
 
O verbo ACHAR apresenta aqui duas caras! – na frase 1 achei uma chave pressupõe-se que a chave estava perdida;  o verbo possui sentido próprio e constante, e aplica-se ao achamento de qualquer objeto perdido: é Verbo PLENO.
 
- na frase 2, não achei nada, mas senti frio, ficou-me a impressão e a opinião de que estava frio. O verbo achar veiculou o atributo adjetival muito fria referente à manhã – Verbo ATRIBUTIVO.
 
3.Andava D. Sueiro de um lado a outro da sala
Suj.: D. Sueiro; predicado: andava de um lado a outro da sala; complementos adverbiais de lugar donde e para onde: de um lado a outro da sala.
[D. Sueiro dava passos: isso é andar]
 
O verbo andar têm também duas caras! – Nesta frase 3, ANDAR é verbo PLENO. D. Sueiro andava mesmo! – dava passos. 
 
4.A Matilde andava doente desde a festa
Suj.: a Matilde; predicado: andava doente; adjunto adverbial de tempo: desde a festa.
 
[O verbo andar, aqui, é atributivo; exprime falta de saúde prolongada.
 Andar doente, andar triste, andar na escola, andar de avião… Aqui, o
verbo andar não é pleno, mas atributivo, portador de atributos]
 
5. Eu chamei parvo o meu vizinho
Oração simples
Suj.: eu; predicado: chamei parvo o meu vizinho; complemento direto: o meu vizinho.
 [Chamar parvo: predicado atributivo]
 
 
6. Eu chamei o João - e ele veio - chamar: verbo Pleno.

 O Dicionário da Academia, e também a Gramática de Bechara (p. 522- da 37.ªed) propõem que os verbos: “chamar, considerar, reputar, julgar, supor, declarar, intitular, crer, estimar, ter e haver por, dar e tomar por, etc.”  se acompanham de predicativo do complemento indireto. Mas é um erro. Estes verbos são atributivos.

Por isso, está errada a análise de Bechara à frase «nós lhe chamávamos doutor» em que atribui a doutor a função de predicativo do complemento indireto.
Teria bastado que o Professore tivesse posto a frase na voz passiva para dar conta do erro, assim:
Por nós ele era chamado doutor
Suj.: ele; predicado: era chamado doutor; complemento de agente da passiva: por nós.
Ao notar a presença de «doutor» como atributo nominal no predicado do verbo chamar, o Professor ter-se-ia dado conta de que este verbo, como todos os outros da sua lista, não são acompanhados de complemento predicativo, mas são verbos atributivos, em que o atributo faz parte do predicado, é o núcleo semântico do predicado.
E isto surpreende-me deveras: ninguém viu isto?
 

quarta-feira, 9 de abril de 2025

 
Recordando Camilo Castelo Branco
Assim começa
EUSÉBIO MACÁRIO 
um dos melhores romances de Camilo

 
Havia na botica um relógio de parede, nacional, datado em1781, feito de grandes toros de carvalho e muita ferraria. Os pesos, quando subiam, rangiam o estridor de um picar de amarras das velhas naus. (Eusébio Macário)
[estridor: ruído intenso, confuso; picar:cortar a golpes de machado a amarra ou o mastro das naus)
 
ANÁLISE SINTÁTICA
 
Havia na botica um relógio de parede, nacional, datado em 1781, feito de grandes toros de carvalho e muita ferraria.
 
Oração simples
Suj.: não tem (o verbo haver é impessoal); predicado: havia na botica um relógio de parede; complemento direto: um relógio de parede; compl. adverbial de lugar onde: na botica; predicativos do compl. direto: nacional, datado em 1781, feito de grandes toros de carvalho e muita ferraria.

Os predicativos são uma função sintática extremamente importante ao nível da informação. Notemos os três predicativos referentes ao relógio: nacional, datado de  ... feito de ... .Está aqui bem evidente a natureza adjetival dos predicativos.

Os pesos, quando subiam, rangiam o estridor de um picar de amarras das velhas naus.
Oração composta
Suj.: os pesos; predicado: rangiam o estridor de um picar de amarras das velhas naus; compl. direto: o estridor de um picar das amarras das velhas naus;
compl. nominal (de estridor): de um picar de amarras; compl. nominal (de amarras): das velhas naus; adjunto adverbial de tempo: quando subiam
 
- quando subiam
Proposição subordinada, adverbial, relativa livre
Suj.: eles (os pesos) predicado: subiam; adjunto adverbial de tempo: na ocasião (em que subiam) 

Notemos que quando (no tempo em que, na allura em que ); onde (no lugar em que...) são advérbios relativos, com antecedente implícito - e introduzem proposições subordinadas adverbiais, relativas livres).

Prestemos ainda atenção ao período inicial deste Romance de Camilo:  
Havia na botica um relógio de parede é a informação básica. A frase estaria assim completa, inteligível. Mas Camilo acrescentou-a com três sintagmas adjetivais: 
Nacional, datado em 1781, feito de… - três informações secundárias, três predicativos que, referidos a relógio de parede, que é complemento direto, são predicativos do complemento direto.
 
Bechara, na pág. 521 da sua Gramática, dá exemplos de predicativos assim: 
Ele estudou atento. Ela estudou atenta (predicativos do sujeito)
Os trens chegaram atrasados (predicativo do sujeito).
O auditório ouviu os conferencistas atento (predicativo do sujeito). 

Os predicativos são de natureza adjetival, predicados secundários, opcionais (não há predicativos obrigatórios) - e são do sujeito, se referidos ao sujeito, como nestas frases de Bechara - e são predicativos dum complemento (geralmente compl. direto), se o seu referente for um substantivo que seja complemento direto .

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Havia na minha casa um relógio velho, pequeno, mas sem ponteiros.
Oração simples
Suj.: não tem (o verbo haver é impessoal);
 predicado: havia na minha casa um relógio velho; compl. direto: um relógio velho; complemento adverbial de lugar onde: na minha casa; predicativos do complemento direto: pequeno, mas sem ponteiros 
[As conjunções coordenativas ligam constituintes da mesma natuareza sintática]

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 https://bit.ly/3Wtcqmu


 


 

quarta-feira, 2 de abril de 2025

 

Os Predicativos

O predicativo é uma função sintática de atribuição, realizada por atributos tipicamente adjetivais ou preposicionados. Os seus referentes, na oração, são o sujeito ou qualquer complemento.

A característica distintiva do predicativo é a sua natureza opcional ou dispensável. Pode, por isso, ser removido da frase sem alterar a estrutura gramatical desta.

A - O António, sorridente, comprou um gelado (sorridente: predicativo do sujeito)
B - O António comprou um gelado.
Comparada com a frase A, a frase B perdeu informação, mas manteve-se correta, gramatical. Se da frase A retirarmos outra qualquer palavra, a frase ficaria agramatical, errada.
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A Gramática de Evanildo Bechara, ed. 37.ª, na página 523, apresenta as diversas posições que os predicativos podem ocupar nas frases. E vemos também que, retirado o predicativo sonorosos, a frase ficaria gramatical: os rios corriam

Os rios corriam sonorosos / Os rios sonorosos corriam. 

Sonorosos corriam os rios / Os rios, sonorosos, corriam 

Vejamos agora dois dos muitos exemplos de predicativos, retirados da nossa Gramática  https://bit.ly/3Wtcqm  pp.30 e 31.

 Maria, imóvel e resignada, começou a falar (Agustina, Sibila, 37)

Oração simples

Suj.: Maria; predicado: começou a falar; predicativos do sujeito: imóvel e resignada.

[O predicado começou a falar é uma perífrase]

 Marta, com um pavor na vista, tremia, de pé, encostada à cómoda. (Camilo, A Brasileira de Prazins, 248).

Esta frase de Camilo Castelo Branco fala-nos de Marta (sujeito) e dela se diz que tremia (predicado). Sujeito + predicado seria bastante para formar uma oração (Marta tremia).

 Mas Camilo quis adicionar outras informações sobre Marta (sujeito), e recorreu a três predicativos: com um pavor na vista - de pé - encostada à cama. Porque Marta é sujeito, as três informações adicionadas que a ela se referem são predicativos do sujeito.

Predicativos do sujeito são atributos que, dentro duma oração, prestam informação (secundária e opcional) sobre o sujeito.

- [mas os mesmos predicativos seriam do complemento direto se Marta fosse complemento direto, assim:

Eu vi Marta (compl. direto); com um pavor na vista, de pé, encostada à cómoda: predicativos do compl. direto.

É este, só este, o modo de funcionamento dos predicativos.

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Nota muito importante: dissemos no início deste texto que:
 O predicativo é uma função sintática de atribuição, realizada por atributos tipicamente adjetivais ou preposicionados.
 Nesta frase de Camilo deparámos com três predicativos: com um pavor na vista - de pé - encostada à cama
 com um pavor na vista: a preposição COM, quando não selecionada, introduz predicativos; 
de pé: os atributos nominais preposicionados podem desempenhar qualquer função atributiva.
Encostada à cama: é um atributo adjetival