sexta-feira, 6 de novembro de 2026

 

O Ciberdúvidas continua a surpreender-nos

1.Esta semana saíram daquele portal, no campo da sintaxe, graves omissões sobre as funções sintáticas do pronome pessoal -lhe - e, também, a afirmação errada de que têm a mesma análise duas frases que, na realidade, pertencem a modelos estruturais contraditórios (verbos plenos / verbos semicopulativos), como veremos de seguida.

Quanto ao LHE, o Ciberdúvidas declara-lhe apenas duas funções sintáticas: a de complemento indireto e a de complemento oblíquo (esta última, a asneira mais destruidora da Sintaxe nas Escolas!). Que pobreza! Como não reconhece o Ciberdúvidas ao -lhe as funções de sujeito, de complemento direto, e, ainda, as de complemento indireto não argumental (como os dativos éticos, de posse, de interesse, e o dativo de lugar? - Trataremos esta assunto aqui, muito em breve)

2.Também, no final da semana passada, o Ciberdúvidas voltou aos verbos transitivo-predicativos, apresentando como equivalentes as análises de duas frases que possuem dinâmicas sintáticas e semânticas opostas, como demonstro a seguir.

A frase «Consideramos aqueles alunos inteligentes», como todas, tem de manter o mesmo sentido na sua forma ativa como na passiva.

Analisemos a frase na sua forma ativa, errada: Sujeito: nós; predicado: consideramos aqueles alunos; complemento direto: aqueles alunos; predicativo do complemento direto: inteligentes.

A conversão passiva, correta, desta análise resultaria assim:

Sujeito: aqueles alunos (era compl. direto na ativa) predicativo do sujeito: inteligentes (era predicativo do compl. direto); predicado: são considerados; compl. de agente da passiva: por nós

Vejamos agora o desequilíbrio semântico que aqui aconteceu:

Na forma ativa: Consideramos aqueles alunos inteligentes (atribuímos-lhes uma qualidade; mas os alunos podem não o ser; é, apenas, a nossa avaliação).

Na forma passiva: Aqueles alunos, inteligentes, são considerados por nós (aqui, inteligentes passa a ser uma característica factual dos alunos — eles são mesmo inteligentes — e nós consideramo-los, isto é, temos estima ou consideração por eles.  

Mas é bem claro que o sentido da forma ativa não coincide com o da forma passiva. E porquê? Porque o verbo considerar, neste contexto, não é um verbo pleno, mas semicopulativo. O predicado real, na forma ativa, tem de ser o predicado complexo: «consideramos inteligentes» (exatamente como os predicados dos verbos copulativos. Só assim "bate a bota com a perdigota".

E a análise deve, pois, ser: suj.: nós; predicado: consideramos aqueles alunos inteligentes; complemento direto: aqueles alunos;

Forma passiva: aqueles alunos são considerados inteligentes por nós.

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Inversamente, repare-se na frase: «O juiz julgou o réu inocente». Aqui, o juiz é mesmo um juiz em pleno exercício e profere um veredicto legal: o verbo julgar é PLENO.

A análise clássica (e correta) é: Sujeito: o juiz; predicado: julgou o réu; complemento direto: o réu; predicativo do complemento direto: inocente

Ao passarmos para a voz passiva: «O réu, inocente, foi julgado pelo juiz»), o valor de verdade e o sentido da frase permanecem rigorosamente os mesmos da forma ativa.

É assim a Língua portuguesa!