quinta-feira, 5 de julho de 2012


Poesia às Quintas (6)

                                     Ver Claro

Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se  regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.

Os Sulcos da Sede - Eugénio de Andrade-2001

Este pequeno poema é de uma transparência luminosa e de uma beleza surpreendentes. Num estilo directo, claro, quase de prosa, Eugénio de Andrade apresenta uma tese, demonstra-a, e conclui. A verdadeira Poesia é assim: quase natural, sempre despretensiosa, humilde mesmo.
Desconfiai dos Poetas complicados! Querem ocultar o nevoeiro que lhes obscurece a alma..

Análise lógica:
Eugénio de Andrade começa por fazer uma afirmação: toda a poesia é luminosa.
Apesar disso, ele sente que, por vezes, o leitor tem dificuldade em ver claro, em apreendê-la, em senti-la, em identificar-se com ela – e tudo  isso é ler poesia.
(Notai a Antítese: poesia luminosa perante um leitor com nevoeiro dentro de si).

Mensagem de esperança: poderemos sempre chegar à Poesia: Se regressarmos - e notai a insistência - se regressarmos outra vez e outra vez e outra vez a essas sílabas acesas (a Poesia) o leitor ficará cego de tanta claridade (verso 10).
(Notai aqui a metáfora:  sílabas acesas)
O Poeta conclui: abençoado seja se lá chegar (verso 11)

Houve um Poeta Inglês - Keats - que escreveu: “A little of beauty is a joy for ever”: uma fração de beleza é um prazer para sempre. Ou, por outras palavras: Quem alguma vez tocou a beleza, ficou marcado para sempre.
É isto que, por outras palavras, nos diz Eugénio de Andrade: Abençoado seja se lá chegar.

Análise Gramático-textual:
É muito curioso este poema: ele constitui um pequeno enredo, fábula, trama, intriga ou diegese (todas estas palavras querem dizer o mesmo!) perfeitamente analisável sob o aspeto da Narrativa.
Neste poema podemos identificar:
-       proposição - ou prefácio, entrada, proposta inicial, apresentação. (v.1 e 2)
-       um (v.3,4 e 5)
-       um desenvolvimento (v.6 a 10)
-       uma conclusão (v.11).
Por outras palavras:
Eugénio de Andrade inicia o poema com uma afirmação genérica: Toda a poesia é luminosa, mesmo aquela que nos parece mais obscura.
É esta a entrada, proposta inicial, prefácio, ou a apresentação.

Mas...A afirmação inicial terá alguma dificuldade em se verificar, porque o leitor, às vezes, em vez de sol tem nevoeiro dentro de si. É o nó.

Como se transporá tal dificuldade, ou  como se desatará esse ?
Regressando insistentemente a essas sílabas acesas.
E este será o desenvolvimento ou a demonstração, ou a solução do nó.
Notai, mais uma vez, a metáfora: o texto poético, sendo arte da palavra, é arte das sílabas...Daí pois,  sílabas luminosas, sílabas acesas.

O último verso constitui a conclusão ou o fecho.
_____________
Todo o texto deverá seguir esta ordem mínima:
            -1 - apresentação do que se vai dizer,
            -2 - dizê-lo (desenvolvimento)
            - 3 - conclusão

Finalmente:
Um texto poético não é excepção a este procedimento fundamental da comunicação humana. Desconfiai sempre dos poetas difíceis. Podeis crer que muito do que deles se diz e escreve não corresponde à sua poesia, mas àquela que alguns críticos querem, e desejam, ver nela.


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