Poesia às Quintas (6)
Ver Claro
Toda a poesia é
luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem
às vezes,
em lugar de sol,
nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca
deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra
vez
e outra vez
a essas sílabas
acesas
ficará cego de tanta
claridade.
Abençoado seja se lá
chegar.
Os Sulcos da Sede - Eugénio de
Andrade-2001
Este pequeno poema é de uma transparência
luminosa e de uma beleza surpreendentes. Num estilo directo, claro, quase de
prosa, Eugénio de Andrade apresenta uma tese, demonstra-a, e conclui. A
verdadeira Poesia é assim: quase
natural, sempre despretensiosa, humilde mesmo.
Desconfiai dos Poetas complicados! Querem
ocultar o nevoeiro que lhes obscurece a alma..
Análise
lógica:
Eugénio de Andrade começa por fazer uma
afirmação: toda a poesia é luminosa.
Apesar disso, ele sente que, por vezes, o
leitor tem dificuldade em ver claro,
em apreendê-la, em senti-la, em identificar-se com ela – e tudo isso é ler poesia.
(Notai a Antítese: poesia luminosa perante um leitor com nevoeiro dentro de si).
Mensagem de esperança: poderemos sempre chegar à Poesia: Se regressarmos - e notai a
insistência - se regressarmos outra vez e
outra vez e outra vez a essas
sílabas acesas (a Poesia) o
leitor ficará cego de tanta claridade
(verso 10).
(Notai aqui a metáfora: sílabas acesas)
O Poeta conclui: abençoado seja se lá chegar (verso 11)
Houve um Poeta Inglês - Keats - que
escreveu: “A little of beauty is a joy for ever”: uma fração de beleza é um
prazer para sempre. Ou, por outras palavras: Quem alguma vez tocou a beleza, ficou marcado para sempre.
É isto que, por outras palavras, nos diz
Eugénio de Andrade: Abençoado seja se lá
chegar.
Análise
Gramático-textual:
É muito curioso este poema: ele constitui
um pequeno enredo, fábula, trama, intriga
ou diegese (todas estas palavras querem dizer o mesmo!) perfeitamente
analisável sob o aspeto da Narrativa.
Neste poema podemos identificar:
- proposição - ou prefácio,
entrada, proposta inicial, apresentação.
(v.1 e 2)
- um nó (v.3,4 e 5)
- um desenvolvimento (v.6 a 10)
- uma conclusão (v.11).
Por outras palavras:
Eugénio de Andrade inicia o poema com uma
afirmação genérica: Toda a poesia é
luminosa, mesmo aquela que nos parece mais obscura.
É esta a entrada, proposta inicial, prefácio, ou a apresentação.
Mas...A afirmação inicial
terá alguma dificuldade em se verificar, porque
o leitor, às vezes, em vez de sol tem nevoeiro dentro de si. É o nó.
Como se transporá tal dificuldade, ou como se desatará esse nó?
Regressando insistentemente a essas sílabas acesas.
E este será o desenvolvimento ou a demonstração,
ou a solução do nó.
Notai, mais uma vez, a metáfora: o texto
poético, sendo arte da palavra, é arte das sílabas...Daí pois, sílabas luminosas,
sílabas acesas.
O último verso constitui a conclusão ou o fecho.
_____________
Todo o
texto deverá
seguir esta ordem mínima:
-1
- apresentação do que se vai dizer,
-2
- dizê-lo (desenvolvimento)
-
3 - conclusão
Finalmente:
Um texto poético não é excepção a este
procedimento fundamental da comunicação humana. Desconfiai sempre dos poetas difíceis.
Podeis crer que muito do que deles se diz e escreve não corresponde à sua poesia, mas àquela que alguns
críticos querem, e desejam, ver nela.
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