A Língua portuguesa é só uma
Peguei há dias numa gramática brasileira, e gostei. Fernando Pestana, seu Autor, expõe conceitos gramaticais de modo agradável. Trata-se de um Autor que, recentemente, vai aparecendo no Ciberdúvidas.
Mas Fernando Pestana apresenta ideias opostas às minhas, e não por convicção sua, mas por imposição da (ABL) Academia Brasileira de Letras. Cito palavras dessa sua Gramática:
“3) Em orações sem sujeito, com o verbo ser, existe predicativo do sujeito! - [e ele próprio comenta: e isso é estranho demais] - no entanto é assim que manda a tradição gramatical, e a gente, que não é bobo nem nada, lhe obedece.
Colega, não posso concordar consigo; nem uma Gramática de obediências pode merecer qualquer crédito. E a prova vem logo a seguir. Depois da afirmação anterior, em que obedece à ABL, logo faz a afirmação doutro erro, em nada menos grave:
que «os predicativos do objeto direto com os verbos transobjetivos julgar, chamar, nomear, eleger, proclamar, designar, considerar, declarar, adotar, tornar, encontrar, deixar, achar..., indicam opinião ou designação e normalmente exigem um objeto seguido de um predicativo do objeto»
Ora isto não é verdade. Os 13 verbos da lista proposta (julgar, chamar….achar) não são transobjetivos, e não selecionam complemento indireto. São verbos semicopulativos que, quando não PLENOS, veiculam atributos que fazem parte do SV (são predicado).
Exemplo;
Salomé é tão rápida e eficiente que lhe chamam Bosch (Lídia Jorge, Misericórdia, O Turno, 3)
Oração composta
Suj.: Salomé; predicado: é tão rápida e eficiente que …
- que lhe chamam Bosch
Proposição subordinada adverbial, consecutiva
Suj.: indeterminado (eles, as pessoas, 3.ª pessoa plural); predicado: lhe chamam Bosch; complemento direto: -lhe.
Bastaria pôr esta frase na voz passiva, e logo a Língua portuguesa mostraria o erro que não será só da ABL, mas até de Bechara, Gramática, edição 37, pág. 522):
Salomé é tão rápida e eficiente que (ela) é chamada Bosch por eles.
[O sujeito da voz passiva (ela) é complemento direto na voz ativa - onde tinha a forma de complemento lhe].
A Gramática Explicativa da Análise Sintática analisa e explica estes e muitos outros casos;
terá, muito provavelmente, alguns erros, que irei debelando – mas deveria ser tida em conta
pelaAcademia das Ciências e pelo Ministério da Educação.
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