terça-feira, 10 de junho de 2025

 

OS LUSÍADAS

Tese Camoniana 

Durante longos anos de trabalho sobre o Poema, e depois de ter consultado dezenas de Autores que dele disseram coisas, o meu único objetivo, ao publicar a sua versão para português atual em 2020, foi entendê-lo, e torná-lo legível e inteligível por todos os falantes da Língua portuguesa.

Um dia, porém, em que relia um qualquer dos seus feitos heroicos, apercebi-me de que, vencida uma batalha, Luís de Camões não celebrava o sucesso dos heróis, mas referia o seu agradecimento a Quem lhes tinha dado a vitória. E pareceu-me, então, que o objetivo do Poeta não era a glorificação dos heróis do Povo, mas o reconhecimento de que algo lhes estava a ser inexplicavelmente concedido (I- 25-1).

A Quem lhe(s) esta vitória permitiu

Dão louvores e graças sem medida,

Que, em casos tão estranhos, claramente

Mais peleja o favor de Deus que a gente. (Os Lusíadas, III-82)

Esta estrofe refere-se ao cerco da cidade de Santarém pelo rei de Marrocos, Ibn Yussuf, em 1184. A cidade foi descercada por D. Sancho I, a mandado de seu pai, D. Afonso Henriques que, depois do desastre de Badajoz, estava inativo. É certo que não pôde sair de Coimbra, mas D. Afonso terá sido determinante nesta vitória, já que o boato da sua vinda terá sido determinante para a fuga dos invasores.

Não há peito tão alto e tão potente

Que de desconfiança não se afronte,

Enquanto não conheça e claro veja

Que, co’o braço dos seus, Cristo peleja. (III-109 – Batalha do Salado) 

O mesmo em: IV- 45; VI-94; VIII-24; X-40, etc…

O Poema demonstra que Portugal é uma nação improvável.

Com Castela, e com todos os outros estados hispânicos, o país lutou pela independência e, surpreendentemente, venceu; contra os mouros, que dominavam o território havia mais de quatro séculos (desde 711), e que eram muito mais evoluídos tecnicamente, muito mais ricos e em muito maior número, Portugal conseguiu expulsá-los do território. Nos mares, a força dos Portugueses dominou os portos de África, criou e fixou-se na mais extensa nação da América do Sul, derrotou no Oriente as armadas egípcias, turcas e cambaicas, e exerceu lá a autoridade própria de um império.

Nem em fábulas sonhadas (X-20) seria imaginável tal poder num povo tão raro em gente.

O Poema demonstra que «Portugal agiu por determinação sua, mas que não era possível, por força sua, alcançar o domínio dos mares, a expansão territorial e a influência cultural em todo o Oriente». FOI-LHE CONCEDIDO (I-25-1).

E podemos ainda ver, só no Canto III, as estrofes 34, 43, 45, 46, 48, 54, 62, 82, 109 e 112 – como já antes as estrofes I-6; I-24 a 32, além de outras, muitas outras, até atingir a demonstração maior com a Máquina do mundo (X -91 a 142), um mapa gigantesco da presença dos Portugueses no mundo. Luís de Camões reservou para o final do Poema esta a demonstração inequívoca dum poder que está para além de um povo de reduzidos recursos e de pouca gente – e de tal modo lhe concede privilégio de demonstração que, em 64 imperativos, insiste com o leitor para que que olhe e veja,

É isto que está no Poema – é isto que eu lá vejo, ao fim de mais de 20 anos a lê-lo.                         

Sem comentários: