Coimbra, 12 de março de 1952 - (I-554)
RETRATO
O meu perfil é duro como o perfil do mundo.
Quem adivinha nele a graça da poesia?
Pedra talhada a pico e sofrimento,
É um muro hostil à volta do pomar.
Lá dentro há frutos, há frescura, há quanto
Faz um poema doce e desejado:
Mas quem passa na rua
Nem sequer sonha que do outro lado
A paisagem da vida continua.
I
[Proposição]
O 1º
verso é duro como o rosto de Miguel Torga, como que talhado à podoa sobre madeira de
azinho.
II
[Nó] – Verso 2: poderá
alguém imaginar naquele perfil o encanto da Poesia?
III
[Desenvolvimento]
– Os versos 3, 4, 5 e 6 alargam a proposta inicial e respondem à interrogação
(ao nó) do verso 2, recorrendo a duas metáforas:
pedra
talhada a pico e
sofrimento, muro impenetrável que resguarda os frutos que tornam doce e
desejada a Poesia.
Parte
4.ª [fecho ou conclusão]:
versos 7, 8 e 9: quem passa, vendo, apenas, a normalidade da vida do Poeta, mal se aperceberá de que no interior daquele muro, aparentemente hostil, possa residir a graça da
Poesia
Comentário
Isto é
poesia; mais: isto é a Poesia, porque consegue criar e transmitir-nos uma estória (uma criação literária, logo, mero fruto de imaginação) que corresponde ao que o Poeta se propõe revelar-nos no título do seu Poema.
Ao
lermos Poesia, se a houver no Poema, ela terá de ser entendida. Não acrediteis em poesias de suspiros ou de exclamações! - que é o muito que por aí anda.
_________________
Texto
de Miguel Torga, Coimbra, 16 de abril de 1952
Irremediavelmente, todos os poemas são datáveis. E a
posteridade encontra mais perenidade naqueles que simultaneamente testemunham e
sugerem. De resto, como poderia o poeta não ser do seu tempo, se ele é sempre a
mais alta consciência de um tempo? O poeta não é uma abstração. É um ser real
que existe no real.
Sem comentários:
Enviar um comentário