terça-feira, 12 de agosto de 2025

                                         

Hoje é o dia do aniversãrio do Poeta Miguel Torga. Nascido em 1907, faria hoje 118 anos. Por isso, em vez da quinta-feira (nosso dia da poesia) adiantámos a publicação para hoje.

                                                SECURA

Cai a chuva nos campos ressequidos,
E a verdura desperta.
Água que desce em regos paralelos,
Repartida no crivo da igualdade.
Toda a sede pode beber
Da grande fonte maternal do céu.
Todas as ervas, todas as culturas
Todas as criaturas
Menos eu.

Diário, 16 de junho de 1952

Esta Poesia é uma daquelas composições que deve ser lida outra vez, e outra vez e outra vez (cfr. Os sulcos da sede, Eugénio de Andrade, ver claro, p.17 – ou neste meu blogue em   05/07/2012 – 1657 consultas).

1.Os dois versos iniciais conformam uma Proposição clara: a chuva cai nos campos e logo a verdura desperta.

2. Esta chuva, porém, toma, nos dois versos seguintes (3 e 4), a forma dum aposto explicativo que permite ao Poeta introduzir uma alteração [um ]; - e é que a chuva agora é água, repartida por um crivo de igualdade, como dádiva da grande fonte maternal do céu. Dela saciam sua sede todas as ervas, todas as culturas, todos os seres vivos…[Desenvolvimento]. 

4. O poema termina com uma profunda desilusão: Menos eu [Fecho].

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Miguel Torga declara muitas vezes, e de muitas maneiras, que se sentia fora da grande fonte maternal do céu, e afirma repetidamente que recusa qualquer conversão.

Temos disso prova evidente na mesma página do Poema (4 de julho de 1952). Nela, Torga escreve:

“Duas doentes, no fim da consulta, prometeram que iam rezar por mim. Agradeci, mas fiquei a parafusar no proselitismo incorrigível das religiões…. Há evidentemente o argumento da caridade. Quem tem o céu teria obrigação de o repartir com o semelhante. Mas se o semelhante o não quer, o recusa, e se mortifica com a generosa insistência?

Estas palavras, e muitas outras idênticas, são largamente ditas e repetidas no Diário; contrastam, porém, com um comportamento que é exatamente o seu oposto, assim:

“Abandono tudo para correr a casa dum amigo que está com dor de dentes, e passo uma noite em claro porque operei um doente, e ele pode ter uma hemorragia. Mas a minha fraqueza maior é não poder desprezar ninguém, mesmo os próprios inimigos. São meus semelhantes, apesar de tudo, e eu não consigo descrer do homem, seja ele como for. Em vez de os esquecer, trago-os no pensamento. Sofro por eles. A minha grande alegria é admirar os outros” (Diário, 12 de agosto de 1946).

[Este comportamento de Miguel Torga em nada difere da doutrina da parábola do Bom Samaritano (Evangelho de S. Lucas)].

No primeiro texto, palavras; neste segundo, atenção e serviço aos outros. Valha-me S. Miguel Torga.

 

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