sexta-feira, 11 de abril de 2025

 

Verbos atributivos I 

 
Ser, estar e parecer: estes verbos são sempre copulativos e atributivos – o que não quer dizer que não haja outros verbos atributivos. Mas há! – e é a própria Língua que no-los demonstra. 
Lamentavelmente, os gramáticos deixaram-se dominar pela ideia errada de que só os verbos copulativos é que eram atributivos. Mas não.. 
 
Façamos a análise seguinte:
 
1.Eu achei uma chave junto de minha casa
Oração simples 
Suj.: eu; predicado: achei uma chave; compl. direto: uma chave; adjunto adverbial de lugar onde: junto de minha casa.
 
2.Ao ir para a Escola, achei a manhã muito fria.
Oração simples
Suj.: eu; predicado: achei a manhã muito fria; compl. direto: a manhã; adjunto adverbial de tempo: ao ir para a escola.
 
O verbo ACHAR apresenta aqui duas caras! – na frase 1 achei uma chave pressupõe-se que a chave estava perdida;  o verbo possui sentido próprio e constante, e aplica-se ao achamento de qualquer objeto perdido: é Verbo PLENO.
 
- na frase 2, não achei nada, mas senti frio, ficou-me a impressão e a opinião de que estava frio. O verbo achar veiculou o atributo adjetival muito fria referente à manhã – Verbo ATRIBUTIVO.
 
3.Andava D. Sueiro de um lado a outro da sala
Suj.: D. Sueiro; predicado: andava de um lado a outro da sala; complementos adverbiais de lugar donde e para onde: de um lado a outro da sala.
[D. Sueiro dava passos: isso é andar]
 
O verbo andar têm também duas caras! – Nesta frase 3, ANDAR é verbo PLENO. D. Sueiro andava mesmo! – dava passos. 
 
4.A Matilde andava doente desde a festa
Suj.: a Matilde; predicado: andava doente; adjunto adverbial de tempo: desde a festa.
 
[O verbo andar, aqui, é atributivo; exprime falta de saúde prolongada.
 Andar doente, andar triste, andar na escola, andar de avião… Aqui, o
verbo andar não é pleno, mas atributivo, portador de atributos]
 
5. Eu chamei parvo o meu vizinho
Oração simples
Suj.: eu; predicado: chamei parvo o meu vizinho; complemento direto: o meu vizinho.
 [Chamar parvo: predicado atributivo]
 
 
6. Eu chamei o João - e ele veio - chamar: verbo Pleno.

 O Dicionário da Academia, e também a Gramática de Bechara (p. 522- da 37.ªed) propõem que os verbos: “chamar, considerar, reputar, julgar, supor, declarar, intitular, crer, estimar, ter e haver por, dar e tomar por, etc.”  se acompanham de predicativo do complemento indireto. Mas é um erro. Estes verbos são atributivos.

Por isso, está errada a análise de Bechara à frase «nós lhe chamávamos doutor» em que atribui a doutor a função de predicativo do complemento indireto.
Teria bastado que o Professore tivesse posto a frase na voz passiva para dar conta do erro, assim:
Por nós ele era chamado doutor
Suj.: ele; predicado: era chamado doutor; complemento de agente da passiva: por nós.
Ao notar a presença de «doutor» como atributo nominal no predicado do verbo chamar, o Professor ter-se-ia dado conta de que este verbo, como todos os outros da sua lista, não são acompanhados de complemento predicativo, mas são verbos atributivos, em que o atributo faz parte do predicado, é o núcleo semântico do predicado.
E isto surpreende-me deveras: ninguém viu isto?
 

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