2.º Epitáfio
Naso Elegis, Flaccus Lyricis, Epigrammate Marcus,Hic jacet Heroo carmine Virgilius.Ovídio, pelas suas elegias; Horácio, pelas suas obras líricas; Marcial, pelos seus epigramas;sob esta lápide, por excelência do seu poema heroico, jaz um outro Virgílio
Ense simul calamoque auxit tibi, Lysia, famam:Unam nobilitant Mars et Apollo manum.Com a espada e, ao mesmo tempo, com o seu Poema, aumentou Camões, ó Portugal, a tua fama. Marte e Apolo enobreceram suas tarefas guerreiras e literárias
Castalium fontem traxit modulamine: at IndoEt Gangi, telis, obstupefecit aquas.Pela harmonia dos seus versos recriou a fonte Castália;com os seus dardos encheu de medo as águas dos rios Indo e Ganges.
India mirata est quando aurea Carmina lucrumIngenii, haud gazas, ex Oriente tulit.Toda a Índia se admirou quando do Oriente trouxe áureos versos como frutodo seu talento, mas não riquezas.
Sic bene de patria meruit dum fulminat ense:At plus dum calamo bellica facta refert .Serviu com mérito a sua pátria, fulminando os inimigos com a sua espada;mérito ainda maior alcançou quando, pelo seu Poema, revelou ao mundo os feitos heroicos dos Portugueses.
Hunc Itali, Galli, Hispani vertere Poetam:Quælibet hunc vellet terra vocare suum .Italianos, franceses e espanhóis fazem tradução do seu poema,e qualquer povo desejaria tê-lo como seu conterrâneo.
Vertere fas, æquare nefas, æquabilis uniEst sibi par nemo, nemo secundus erit .Louvável é traduzi-lo, mas impossível igualá-lo; só a si próprio ele se iguala.Ninguém lhe é par; ninguém será, alguma vez, um segundo Camões.
Porquê este segundo epitáfio?
D. Martim Gonçalves da Câmara, homem de grande cultura (ex-jesuíta e ex-reitor da universidade de Coimbra) terá sido, muito provavelmente, quem quis acudir à pobreza extrema de Luís de Camões antes de editar Os Lusíadas. Como escrivão de puridade do rei D. Sebastião (cargo equivalente ao de 1.º Ministro), só ele podia atribuir ao Poeta a tença anual de 15.000 reis de que beneficiou o Poeta e, depois de sua morte, também sua mãe.
Os termos desta tença são muito curiosos: datado de 28 de julho de 1572, o documento antecipa o seu efeito para 12 de março do mesmo ano, em recompensa dos serviçosprestados na Índia. Mas este motivo é claramente um tapa-olhos. A causa insofismável é a publicação d’Os Lusíadas – saídos da tipografia de António Gonçalves exatamente nesse dia: 12 de março 1572.
Foi generosa esta tença – mas era um dinheiro do Reino.
Por isso, D. Martim Gonçalves da Câmara terá querido, a seu custo, prestar a Luís de Camões uma homenagem que perdurasse por muitos séculos. Para isso, pediu autorização a D. Gonçalo Coutinho para juntar ao seu epitáfio um outro, em Latim, Língua universal no mundo da cultura, cujo texto pediu a um professor de humanidades, o Padre jesuíta Mateus Cardoso da Univ. de Évora.
Assim nasceu este 2.º epitáfio.… mas logo desapareceram, quando a Igreja de Sant'Ana foi totalmente destruída pelo Terramoto de 1755. Restaram, apenas, registos manuscritos, com uma leve exceção: a designação de "Príncipe dos poetas de seu tempo" devida a D. Gonçalo Coutinho, que perdura no túmulo do Poeta, nos Jerónimos, em Lisboa.
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