terça-feira, 22 de julho de 2025

  

Quanto mais... tanto mais...

Locuções adverbiais de  proporcionalidade


1. O céu toldara-se de novo, caía uma chuva leve, farinhenta, mas no pátio a multidão continuava firme. Nem o dilúvio a afastaria, quanto mais aquela poalha de água (Carlos de Oliveira, Uma Abelha…início do cap. XXX)

 

O céu toldara-se de novo

Suj.: o céu; predicado: toldara-se de novo

[toldara-se: este se é inerente ao verbo, como em arrepender-se, envergonhar-se, …)

- de novo (locução adverbial): outra vez, mais uma vez

 

Caía uma chuva leve, farinhenta

Oração coordenada copulativa assindética

Suj.: uma chuva leve, farinhenta; predicado: caía


Mas no pátio a multidão continuava firme

Oração coordenada adversativa

Suj.: a multidão: predicado copulativo (ou nominal, ou atributivo): continuava firme; adjunto adverbial de lugar onde: no pátio

 

Nem o dilúvio a afastaria, quanto mais aquela poalha de água

Oração coordenara copulativa

Suj.: nem o dilúvio, quanto mais ela poalha de água; predicado: a afastaria; compl. direto. -a 

A forma passiva desta oração seria assim:

Ela (a multidão no pátio) não seria afastada por um dilúvio, quanto mais por aquela poalha de água.

 

ou:

Nem por um dilúvio, quanto mais por aquela poalha de água, ela (a multidão) seria afastada

 

2. A desgraça quebranta o rancor de estranhos, quanto mais o afetuoso ressentimento de um pai! (Camilo, Amor de perdição, 114)

Quanto mais…: muito mais (o quebranta) o afetuoso ressentimento de um pai

 

Suj.: a desgraça, quanto mais o afetuoso ressentimento dum pai; predicado: quebranta o rancor de estranhos; compl. direto: o rancor de estranhos.

 

Na forma passiva, esta frase tomaria a forma:

O rancor de estranhos é quebrantado pela desgraça, quanto mais pelo afetuoso ressentimento dum pai.

 _____________________

A forma passiva é a prova mais evidente que a Língua nos proporciona para podermos demonstrar a clareza de sentido duma frase - uma vez que ela tem de manter, sob a forma passiva, o mesmo sentido (o mesmo valor semântico) da forma ativa.

 

segunda-feira, 14 de julho de 2025


COMO SE
(Advérbio relativo COMO +conj. condicional SE)

Verbos leves

1.. Não se sabia quem dera essa ordem, mas Cláudia apareceu no caixão como se fosse para o baile, com joias, penteada por um cabeleireiro famoso… (Agustina, Antes do Degelo, p.225)
Oração composta

Não se sabia quem dera essa ordem
Oração composta
Suj.: quem dera essa ordem; predicado: não se sabia

Quem dera essa ordem
Proposição interrogativa indireta, substantiva
Suj.: quem (a pessoa que); predicado complexo: dera essa ordem; compl. direto: essa ordem.

Verbos leves (dar, fazer, ter, tomar – leves porque perderam o peso do seu significado pleno. Quem faz uma viagem, por exemplo, não faz nada, mas viaja; quem dá uma ordem ou um conselho, não dá nada, mas ordena ou aconselha alguém; quem toma uma decisão, não toma nada, mas decide… Estes verbos tomaram o nome de leves (não tomaram nada, mas denominaram-se leves). Vemos, pois, que deixaram de ser PLENOS - e formaram predicados complexos cujo valor semântico (significado) resulta mais do substantivo abstrato do que do verbo (dar uma queda é cair; ter receio ou medo é recear. Com o verbo ter, a presença de um modificador pode ser obrigatória, assim: oxalá tenhas uma viagem agradável!

2. mas Cláudia apareceu no caixão como se fosse para o baile, com joias, penteada por um cabeleireiro famoso
Oração coordenada adversativa
 
Suj.: Cláudia; predicado nominal: apareceu no caixão como se fosse para o baile, com joias, penteada por um cabeleireiro famoso; adjunto adverbial de lugar onde: no caixão; adjunto adverbial de modo: como se fosse para o baile; complemento de agente da passiva; por um cabeleireiro famoso.

O verbo aparecer é copulativo quando tem o sentido de mostrar-se, apresentar-se. [Cláudia apareceu sorridente, simpática, de vestido branco…]
Os atributos à direita dum verbo copulativo fazem parte do sintagma verbal que é predicado; não são predicativos do sujeito.

- se fosse para o baile
Proposição subordinada condicional.

 Suj.: ela (Cláudia); predicado: fosse para o baile; compl. adverbial de lugar para onde: para o baile

Esta última oração (proposição) condicional tem sido classificada como comparativa. Mas vejamos o sentido da frase: Cláudia apareceu no caixão da maneira como apareceria se fosse para o baile.  -  a palavra como é advérbio relativo, pois aceitaria como antecedente qualquer das palavras modo ou maneira. Como se fosse para o baie ... foi o modo como ela apreceu. Assim se justifica a nossa proposta de análise da oração: a palavra COMO é advérbio relativo, seguido da conjunção condicional SE. 

segunda-feira, 7 de julho de 2025


COMO SE - desde que; advérbios e conjunções

1.Amou os filhos dela como se Deus lhos confiasse. (Agustina, A Brusca, 13) 
Oração composta
Suj. ele; predicado: amou os filhos dela; complemento direto: os filhos dela; adjunto adverbial de modo: como se Deus lhos confiasse - [ele amou os filhos dela do modo como (amaria) se Deus lhos confiasse].

- se Deus lhos confiasse   
Proposição condicional
Suj.: Deus; predicado verbal: lhos confiasse; compl. direto: os; compl. indireto: -lhe

- Quando a palavra COMO tiver, ou aceitar como antecedente qualquer dos substantivos  modo ou maneira, ou o pronome demonstrativo tal – a palavra COMO é advérbio relativo (do modo como (amaria) se... (este SE é uma conjunção condicional). 
 
2. Desde que conheci Simão, não me consta que ele tenha dado o menor desgosto à sua família, nem ouço falar mal dele. (Camilo, Amor de Perdição, p. 38).

Desde que: preposição seguida de pronome relativo de antecedente incotporado como em  desde quandodesde o dia em que…desde o tempo... 
 
- não me consta que ele tenha dado o menor desgosto à sua família, 
Oração composta
Suj.: que ele (Simão) tenha dado o menor desgosto à sua família; predicado verbal: não me consta; adjunto adverbial de tempo (desde quando):  desde que conheci Simão.

- que ele tenha dado um desgosto à sua família 
Proposição integrante substantiva 
Suj.: ele; predicado complexo: tenha dado o menor desgosto à sua família; compl. direto: o menor desgosto; compl. indireto: à sua família  

Dar um desgosto (desgostar) é uma construção com verbo de apoio (também chamado verbo leve) – como fazer uma viagem (viajar), tomar uma decisão (decidir) – fazer e tomar são verbos leves ou de apoio. 
 
- desde que  conheci Simão  
Proposição relativa de (antecedente incorporado: o tempo em que...)
Suj.: eu; predicado verbal: conheci Simão; compl. direto: Simão.

- nem oiço fala mal dele 
Oração coordenada copulativa
Suj.: eu; predicado: nem oiço falar mal dele; complemento direto: falar mal dele; adjunto adverbial de tema ou assunto: dele.

1.Quando é um advérbio relativo porque tem significado próprio e desempenha função sintática nas orações; equivale a: no tempo em que, na altura em que, na ocasião em que… Por isso, pode introduzir proposições relativas livres. Com este significado, é advérbio, e não conjunção, porque...
 
2.As conjunções só estabelecem relações entre palavras, grupos sintáticos ou orações: não desempenham função sintáticas. As conjunções integrantes ou as causais, condicionais, concessivas, consecutivas. ou as coordenativas: e, mas, ou…etc.- só servem para ligar orações, e nunca desempenham função diferente dessa.

 

quarta-feira, 2 de julho de 2025

             Como é advérbio relativo

quando, depois dele, é aceitável a repetição do verbo que o antecede


Homem de palavra era como se trouxesse sempre consigo um alforge de libras. Ajustava o que queria e levantava o que queria de proprietários e de tendeiros. Palavra era palavra, mais ouro de lei que uma peça de D. João. (Aquilino Ribeiro, O Malhadinhas, p.14).

Bons velhos costumes estes que a nossa Literatura fixou para delícia e aprendizagem deste nosso tempo! Este nosso blogue, que divulga um modo de análise, com o fim de aprofundar o conhecimento da Língua, é a esta Literatura que vai buscar os seus textos para análise. 

Análise
1.Homem de palavra era como se trouxesse sempre consigo um alforge de libras. 

Oração composta
Suj.: homem de palavra; predicado (nominal ou atributivo): era como se trouxesse consigo um alforge de libras.

 Homem de palavra ERA COMO SE TROUXESSE = era como (SERIA) SE TROUXESSE...era do modo ou maneira como seria se ... Esta palavra COMO, nesta posição, é advérbio relativo.

-   se trouxesse sempre consigo um alforge de libras.
Proposição condicional
Suj.: ele; predicado verbal: trouxesse sempre consigo um alforge de libras; compl. direto: um alforge de libras; adjunto adverbial de tempo: sempre.

…levantava o que queria de proprietários e de tendeiros
Oração composta
Suj.: ele; predicado verbal: levantava o que queria; compl. direto: o que queria; compl. adverbial de origem ou procedência: de proprietários e de tendeiros
 
- que queria
Proposição subordinada relativa, adjetiva
Suj.: ele; predicado verbal: que queria; compl. direto: que (aquilo que... a mercadoria que...)

 
2. Palavra era palavra, mais ouro de lei que uma peça de D. João.

Oração simples

Suj.: palavra; predicado nominal ou atributivo: era palavra, mais ouro de lei que uma peça de D. João; aposto explicativo: mais ouro de lei que uma peça de D. João.
2º termo de comparação: que (do que) uma peça (libra) de D. João (V).


  

terça-feira, 24 de junho de 2025

 Pergunta ao Ciberdúvidas

Na frase
«O problema, dizia Benito, era que não tinha os papéis em ordem»
uma Colega pergunta
1.      - se a palavra “que” é uma conjunção subordinativa completiva com a função sintática de predicativo de sujeito;

2.      – e diz também que colegas seus consideram aquele “que” um pronome relativo, mas ela não concorda, porque não há ali um antecedente'.  (Ciberdúvidas 22-06-2025)

O Ciberdúvidas respondeu:
'Esta oração desempenha a função sintática de predicativo do sujeito e é introduzida pela conjunção subordinativa completiva que' - Tudo isto está errado. 
 
Colega professora de Guimarães
1.      As conjunções não desempenham função sintática nas frases: nunca são sujeito, predicativo, complemento ou adjunto. A única função das conjunções é iniciarem orações subordinadas (Proposições) ou servirem de ligação entre duas palavras ou frases da mesma natureza sintática. Por isso, o “que” desta frase NUNCA poderia ser predicativo do sujeito.
2.      – mais ainda: os atributos à direita dos verbos copulativos não são predicativos do sujeito.
3.      –Também a hipótese de o “que” ser pronome relativo, como a colega reconhece, é inadmissível. A frase não apresenta qualquer palavra com a qual aquele “que” se relacione como seu antecedente

 

        A análise sintática desta frase é a seguinte:

O problema era que não tinha os papéis em ordem 
Oração composta 
Suj.: o problema; predicado: era que não tinha os papéis em ordem 
 
- que não tinha os papéis em ordem
Proposição integrante, substantiva.
Suj.: ele; predicado complexo: não tinha os papéis em ordem; compl. direto: os papéis
(a frase tem intercalada uma oração parentéticadizia Benito - Suj.: Benito; predicado dizia).
 
Notas explicativas:
1.      Ter em ordem, ter em mente, ter em conta…
– O verbo ter, quando não exprime posse,  forma predicados complexos - cfr. verbos leves ou de apoio. Tratamos destes verbos em 14 de julho.
2.      O “que”, quando conjunção (integrante ou outra), não desempenha função (sujeito, complemento, predicativo...). Geralmente, inicia uma Proposição  ou liga, entre si, duas palavras ou atributos que desempenham a mesma função sintática.
3.       O que desta oração composta é conjunção integrante porque integra a oração subordinada substantiva na oração composta.
4.      Oração composta é UMA oração de que faz parte uma PROPOSIÇÃO.
5.      Proposição: é o nome que se dá a uma oração subordinada que desempenha função sintática dentro duma oração composta.
6.      A frase que analisámos é, pois, uma oração composta; dela faz parte  a proposição que não tinha os papéis em ordem.

 



terça-feira, 10 de junho de 2025

 

OS LUSÍADAS

Tese Camoniana 

Durante longos anos de trabalho sobre o Poema, e depois de ter consultado dezenas de Autores que dele disseram coisas, o meu único objetivo, ao publicar a sua versão para português atual em 2020, foi entendê-lo, e torná-lo legível e inteligível por todos os falantes da Língua portuguesa.

Um dia, porém, em que relia um qualquer dos seus feitos heroicos, apercebi-me de que, vencida uma batalha, Luís de Camões não celebrava o sucesso dos heróis, mas referia o seu agradecimento a Quem lhes tinha dado a vitória. E pareceu-me, então, que o objetivo do Poeta não era a glorificação dos heróis do Povo, mas o reconhecimento de que algo lhes estava a ser inexplicavelmente concedido (I- 25-1).

A Quem lhe(s) esta vitória permitiu

Dão louvores e graças sem medida,

Que, em casos tão estranhos, claramente

Mais peleja o favor de Deus que a gente. (Os Lusíadas, III-82)

Esta estrofe refere-se ao cerco da cidade de Santarém pelo rei de Marrocos, Ibn Yussuf, em 1184. A cidade foi descercada por D. Sancho I, a mandado de seu pai, D. Afonso Henriques que, depois do desastre de Badajoz, estava inativo. É certo que não pôde sair de Coimbra, mas D. Afonso terá sido determinante nesta vitória, já que o boato da sua vinda terá sido determinante para a fuga dos invasores.

Não há peito tão alto e tão potente

Que de desconfiança não se afronte,

Enquanto não conheça e claro veja

Que, co’o braço dos seus, Cristo peleja. (III-109 – Batalha do Salado) 

O mesmo em: IV- 45; VI-94; VIII-24; X-40, etc…

O Poema demonstra que Portugal é uma nação improvável.

Com Castela, e com todos os outros estados hispânicos, o país lutou pela independência e, surpreendentemente, venceu; contra os mouros, que dominavam o território havia mais de quatro séculos (desde 711), e que eram muito mais evoluídos tecnicamente, muito mais ricos e em muito maior número, Portugal conseguiu expulsá-los do território. Nos mares, a força dos Portugueses dominou os portos de África, criou e fixou-se na mais extensa nação da América do Sul, derrotou no Oriente as armadas egípcias, turcas e cambaicas, e exerceu lá a autoridade própria de um império.

Nem em fábulas sonhadas (X-20) seria imaginável tal poder num povo tão raro em gente.

O Poema demonstra que «Portugal agiu por determinação sua, mas que não era possível, por força sua, alcançar o domínio dos mares, a expansão territorial e a influência cultural em todo o Oriente». FOI-LHE CONCEDIDO (I-25-1).

E podemos ainda ver, só no Canto III, as estrofes 34, 43, 45, 46, 48, 54, 62, 82, 109 e 112 – como já antes as estrofes I-6; I-24 a 32, além de outras, muitas outras, até atingir a demonstração maior com a Máquina do mundo (X -91 a 142), um mapa gigantesco da presença dos Portugueses no mundo. Luís de Camões reservou para o final do Poema esta a demonstração inequívoca dum poder que está para além de um povo de reduzidos recursos e de pouca gente – e de tal modo lhe concede privilégio de demonstração que, em 64 imperativos, insiste com o leitor para que que olhe e veja,

É isto que está no Poema – é isto que eu lá vejo, ao fim de mais de 20 anos a lê-lo.                         

terça-feira, 3 de junho de 2025

 

A Língua portuguesa
está gravenente doente

1. Neste final de ano letivo, agradeço o estímulo recebido da parte daqueles que têm acompanhado os trabalhos que publiquei neste blogue, e também na Gramática Explicativa da Análise sintática, disponível no Google play. Nestes dois trabalhos  analiso e explico mais de mil orações. Que eu saiba, nunca terá sido feito trabalho tão vasto de análise sintática sobre textos da Literatura em Língua portuguesa.

    2. Este entusiasmo gramatical é já muito antigo em mim; tem orgem no estudo da Língua latina, iniciado há 76 anos. Bastante depois, como professor da Língua portuguesa, comecei a ficar surpreendido, e até chocado, com as Gramáticas com que fui deparando. Por indiferença, ou ignorância, dos responsáveis pelo ensino, o erro foi-se instalando, generalizou-se, e é hoje muito URGENTE acudir ao estado caótico em que se encontra o ensino da Língua portuguesa. Em questões de sintaxe, a Gramática da Língua portuguesa é ainda a de 1536.
É muito urgente INOVAR; é necessário dar formação gramatical correta aos nossos alunos. 

 Situações caóticas de intervenção urgente:

1.  Atualizar a noção e funcionamento das orações copulativas, que continuam erradas no ensino atual;

2. Identificar e analisar as orações semicopulativas. É inadmissível o desconhecimento destas orações, fundamentais na análise gramatical. Até no  Dicionário da Academia de Ciências (Predicativo, GRAMÁTICA,3; e  Gramática de Bechara, ed.37, p.522) estão ERRADAS. Uma vergonha!

3.    É um erro afirmar a existência de orações subordinantes, devido à ignorância dum elementar conceito de orações sintáticas.

4.  Também o modo de análise tradicional de divisão de orações tem de ser alterado, porque está errado.

O estudo da Língua portuguesa deve ter como base a frase literária, produzida pelos bons escritores de Língua portuguesa em Angola, no Brasil, em Moçambique, em Portugal, e noutros…

O Ensino da Língua portuguesa está a deixar-nos envergonhados:  na linguagem que vemos escrita nas televisões, na grafia dos comentários que todos os dias os jovens escrevem  nos telemóveis e, pior ainda, nas próprias Gramáticas. Até ao próprio Dicionário da Academia chegam as manifestações de ignorância gramatical. A Língua portuguesa merece muito mais.