quinta-feira, 7 de agosto de 2025

 Coimbra, 12 de março de 1952 - (I-554)
           

                            RETRATO
 

O meu perfil é duro como o perfil do mundo.
Quem adivinha nele a graça da poesia?
Pedra talhada a pico e sofrimento,
É um muro hostil à volta do pomar.
Lá dentro há frutos, há frescura, há quanto
Faz um poema doce e desejado:
Mas quem passa na rua
Nem sequer sonha que do outro lado
A paisagem da vida continua.


I [Proposição]
O 1º verso é duro como o rosto de Miguel Torga, como que talhado à podoa sobre madeira de azinho.
 
II [Nó] – Verso 2: poderá alguém imaginar naquele perfil o encanto da Poesia?
 
III [Desenvolvimento] – Os versos 3, 4, 5 e 6 alargam a proposta inicial e respondem à interrogação (ao nó) do verso 2, recorrendo a duas metáforas:  
pedra talhada a pico e sofrimento, muro impenetrável que resguarda os frutos que tornam doce e desejada a Poesia.
 
Parte 4.ª [fecho ou conclusão]: versos 7, 8 e 9: quem passa, vendo, apenas, a normalidade da vida do Poeta, mal se aperceberá de que no interior daquele muro, aparentemente hostil, possa residir a graça da Poesia  
 
Comentário
Isto é poesia; mais: isto é a Poesia, porque consegue criar e transmitir-nos uma estória (uma criação literária, logo, mero fruto de imaginação) que corresponde ao que o Poeta se propõe revelar-nos no título do seu Poema. 

Ao lermos Poesia, se a houver no Poema, ela terá de ser entendida. Não acrediteis em poesias de suspiros ou de exclamações! - que é o muito que por aí anda.

_________________
 
Texto de Miguel Torga, Coimbra, 16 de abril de 1952
Irremediavelmente, todos os poemas são datáveis. E a posteridade encontra mais perenidade naqueles que simultaneamente testemunham e sugerem. De resto, como poderia o poeta não ser do seu tempo, se ele é sempre a mais alta consciência de um tempo? O poeta não é uma abstração. É um ser real que existe no real.
 

terça-feira, 22 de julho de 2025

  

Quanto mais... tanto mais...

Locuções adverbiais de  proporcionalidade


1. O céu toldara-se de novo, caía uma chuva leve, farinhenta, mas no pátio a multidão continuava firme. Nem o dilúvio a afastaria, quanto mais aquela poalha de água (Carlos de Oliveira, Uma Abelha…início do cap. XXX)

 

O céu toldara-se de novo

Suj.: o céu; predicado: toldara-se de novo

[toldara-se: este se é inerente ao verbo, como em arrepender-se, envergonhar-se, …)

- de novo (locução adverbial): outra vez, mais uma vez

 

Caía uma chuva leve, farinhenta

Oração coordenada copulativa assindética

Suj.: uma chuva leve, farinhenta; predicado: caía


Mas no pátio a multidão continuava firme

Oração coordenada adversativa

Suj.: a multidão: predicado copulativo (ou nominal, ou atributivo): continuava firme; adjunto adverbial de lugar onde: no pátio

 

Nem o dilúvio a afastaria, quanto mais aquela poalha de água

Oração coordenara copulativa

Suj.: nem o dilúvio, quanto mais ela poalha de água; predicado: a afastaria; compl. direto. -a 

A forma passiva desta oração seria assim:

Ela (a multidão no pátio) não seria afastada por um dilúvio, quanto mais por aquela poalha de água.

 

ou:

Nem por um dilúvio, quanto mais por aquela poalha de água, ela (a multidão) seria afastada

 

2. A desgraça quebranta o rancor de estranhos, quanto mais o afetuoso ressentimento de um pai! (Camilo, Amor de perdição, 114)

Quanto mais…: muito mais (o quebranta) o afetuoso ressentimento de um pai

 

Suj.: a desgraça, quanto mais o afetuoso ressentimento dum pai; predicado: quebranta o rancor de estranhos; compl. direto: o rancor de estranhos.

 

Na forma passiva, esta frase tomaria a forma:

O rancor de estranhos é quebrantado pela desgraça, quanto mais pelo afetuoso ressentimento dum pai.

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A forma passiva é a prova mais evidente que a Língua nos proporciona para podermos demonstrar a clareza de sentido duma frase - uma vez que ela tem de manter, sob a forma passiva, o mesmo sentido (o mesmo valor semântico) da forma ativa.

 

segunda-feira, 14 de julho de 2025


COMO SE
(Advérbio relativo COMO +conj. condicional SE)

Verbos leves

1.. Não se sabia quem dera essa ordem, mas Cláudia apareceu no caixão como se fosse para o baile, com joias, penteada por um cabeleireiro famoso… (Agustina, Antes do Degelo, p.225)
Oração composta

Não se sabia quem dera essa ordem
Oração composta
Suj.: quem dera essa ordem; predicado: não se sabia

Quem dera essa ordem
Proposição interrogativa indireta, substantiva
Suj.: quem (a pessoa que); predicado complexo: dera essa ordem; compl. direto: essa ordem.

Verbos leves (dar, fazer, ter, tomar – leves porque perderam o peso do seu significado pleno. Quem faz uma viagem, por exemplo, não faz nada, mas viaja; quem dá uma ordem ou um conselho, não dá nada, mas ordena ou aconselha alguém; quem toma uma decisão, não toma nada, mas decide… Estes verbos tomaram o nome de leves (não tomaram nada, mas denominaram-se leves). Vemos, pois, que deixaram de ser PLENOS - e formaram predicados complexos cujo valor semântico (significado) resulta mais do substantivo abstrato do que do verbo (dar uma queda é cair; ter receio ou medo é recear. Com o verbo ter, a presença de um modificador pode ser obrigatória, assim: oxalá tenhas uma viagem agradável!

2. mas Cláudia apareceu no caixão como se fosse para o baile, com joias, penteada por um cabeleireiro famoso
Oração coordenada adversativa
 
Suj.: Cláudia; predicado nominal: apareceu no caixão como se fosse para o baile, com joias, penteada por um cabeleireiro famoso; adjunto adverbial de lugar onde: no caixão; adjunto adverbial de modo: como se fosse para o baile; complemento de agente da passiva; por um cabeleireiro famoso.

O verbo aparecer é copulativo quando tem o sentido de mostrar-se, apresentar-se. [Cláudia apareceu sorridente, simpática, de vestido branco…]
Os atributos à direita dum verbo copulativo fazem parte do sintagma verbal que é predicado; não são predicativos do sujeito.

- se fosse para o baile
Proposição subordinada condicional.

 Suj.: ela (Cláudia); predicado: fosse para o baile; compl. adverbial de lugar para onde: para o baile

Esta última oração (proposição) condicional tem sido classificada como comparativa. Mas vejamos o sentido da frase: Cláudia apareceu no caixão da maneira como apareceria se fosse para o baile.  -  a palavra como é advérbio relativo, pois aceitaria como antecedente qualquer das palavras modo ou maneira. Como se fosse para o baie ... foi o modo como ela apreceu. Assim se justifica a nossa proposta de análise da oração: a palavra COMO é advérbio relativo, seguido da conjunção condicional SE. 

segunda-feira, 7 de julho de 2025


COMO SE - desde que; advérbios e conjunções

1.Amou os filhos dela como se Deus lhos confiasse. (Agustina, A Brusca, 13) 
Oração composta
Suj. ele; predicado: amou os filhos dela; complemento direto: os filhos dela; adjunto adverbial de modo: como se Deus lhos confiasse - [ele amou os filhos dela do modo como (amaria) se Deus lhos confiasse].

- se Deus lhos confiasse   
Proposição condicional
Suj.: Deus; predicado verbal: lhos confiasse; compl. direto: os; compl. indireto: -lhe

- Quando a palavra COMO tiver, ou aceitar como antecedente qualquer dos substantivos  modo ou maneira, ou o pronome demonstrativo tal – a palavra COMO é advérbio relativo (do modo como (amaria) se... (este SE é uma conjunção condicional). 
 
2. Desde que conheci Simão, não me consta que ele tenha dado o menor desgosto à sua família, nem ouço falar mal dele. (Camilo, Amor de Perdição, p. 38).

Desde que: preposição seguida de pronome relativo de antecedente incotporado como em  desde quando: desde o dia em que…desde o tempo... 
 
- não me consta que ele tenha dado o menor desgosto à sua família, 
Oração composta
Suj.: que ele (Simão) tenha dado o menor desgosto à sua família; predicado verbal: não me consta; adjunto adverbial de tempo (desde quando):  desde que conheci Simão.

- que ele tenha dado um desgosto à sua família 
Proposição integrante substantiva 
Suj.: ele; predicado complexo: tenha dado o menor desgosto à sua família; compl. direto: o menor desgosto; compl. indireto: à sua família  

Dar um desgosto (desgostar) é uma construção com verbo de apoio (também chamado verbo leve) – como fazer uma viagem (viajar), tomar uma decisão (decidir) – fazer e tomar são verbos leves ou de apoio. 
 
- desde que  conheci Simão  
Proposição relativa de (antecedente incorporado: o tempo em que...)
Suj.: eu; predicado verbal: conheci Simão; compl. direto: Simão.

- nem oiço fala mal dele 
Oração coordenada copulativa
Suj.: eu; predicado: nem oiço falar mal dele; complemento direto: falar mal dele; adjunto adverbial de tema ou assunto: dele.

1.Quando é um advérbio relativo porque tem significado próprio e desempenha função sintática nas orações; equivale a: no tempo em que, na altura em que, na ocasião em que… Por isso, pode introduzir proposições relativas livres. Com este significado, é advérbio, e não conjunção, porque...
 
2.As conjunções só estabelecem relações entre palavras, grupos sintáticos ou orações: não desempenham função sintáticas. As conjunções integrantes ou as causais, condicionais, concessivas, consecutivas. ou as coordenativas: e, mas, ou…etc.- só servem para ligar orações, e nunca desempenham função diferente dessa.

 

quarta-feira, 2 de julho de 2025

             Como é advérbio relativo

quando, depois dele, é aceitável a repetição do verbo que o antecede


Homem de palavra era como se trouxesse sempre consigo um alforge de libras. Ajustava o que queria e levantava o que queria de proprietários e de tendeiros. Palavra era palavra, mais ouro de lei que uma peça de D. João. (Aquilino Ribeiro, O Malhadinhas, p.14).

Bons velhos costumes estes que a nossa Literatura fixou para delícia e aprendizagem deste nosso tempo! Este nosso blogue, que divulga um modo de análise, com o fim de aprofundar o conhecimento da Língua, é a esta Literatura que vai buscar os seus textos para análise. 

Análise
1.Homem de palavra era como se trouxesse sempre consigo um alforge de libras. 

Oração composta
Suj.: homem de palavra; predicado (nominal ou atributivo): era como se trouxesse consigo um alforge de libras.

 Homem de palavra ERA COMO SE TROUXESSE = era como (SERIA) SE TROUXESSE...era do modo ou maneira como seria se ... Esta palavra COMO, nesta posição, é advérbio relativo.

-   se trouxesse sempre consigo um alforge de libras.
Proposição condicional
Suj.: ele; predicado verbal: trouxesse sempre consigo um alforge de libras; compl. direto: um alforge de libras; adjunto adverbial de tempo: sempre.

…levantava o que queria de proprietários e de tendeiros
Oração composta
Suj.: ele; predicado verbal: levantava o que queria; compl. direto: o que queria; compl. adverbial de origem ou procedência: de proprietários e de tendeiros
 
- que queria
Proposição subordinada relativa, adjetiva
Suj.: ele; predicado verbal: que queria; compl. direto: que (aquilo que... a mercadoria que...)

 
2. Palavra era palavra, mais ouro de lei que uma peça de D. João.

Oração simples

Suj.: palavra; predicado nominal ou atributivo: era palavra, mais ouro de lei que uma peça de D. João; aposto explicativo: mais ouro de lei que uma peça de D. João.
2º termo de comparação: que (do que) uma peça (libra) de D. João (V).


  

terça-feira, 24 de junho de 2025

 Pergunta ao Ciberdúvidas

Na frase
«O problema, dizia Benito, era que não tinha os papéis em ordem»
uma Colega pergunta
1.      - se a palavra “que” é uma conjunção subordinativa completiva com a função sintática de predicativo de sujeito;

2.      – e diz também que colegas seus consideram aquele “que” um pronome relativo, mas ela não concorda, porque não há ali um antecedente'.  (Ciberdúvidas 22-06-2025)

O Ciberdúvidas respondeu:
'Esta oração desempenha a função sintática de predicativo do sujeito e é introduzida pela conjunção subordinativa completiva que' - Tudo isto está errado. 
 
Colega professora de Guimarães
1.      As conjunções não desempenham função sintática nas frases: nunca são sujeito, predicativo, complemento ou adjunto. A única função das conjunções é iniciarem orações subordinadas (Proposições) ou servirem de ligação entre duas palavras ou frases da mesma natureza sintática. Por isso, o “que” desta frase NUNCA poderia ser predicativo do sujeito.
2.      – mais ainda: os atributos à direita dos verbos copulativos não são predicativos do sujeito.
3.      –Também a hipótese de o “que” ser pronome relativo, como a colega reconhece, é inadmissível. A frase não apresenta qualquer palavra com a qual aquele “que” se relacione como seu antecedente

 

        A análise sintática desta frase é a seguinte:

O problema era que não tinha os papéis em ordem 
Oração composta 
Suj.: o problema; predicado: era que não tinha os papéis em ordem 
 
- que não tinha os papéis em ordem
Proposição integrante, substantiva.
Suj.: ele; predicado complexo: não tinha os papéis em ordem; compl. direto: os papéis
(a frase tem intercalada uma oração parentética – dizia Benito - Suj.: Benito; predicado dizia).
 
Notas explicativas:
1.      Ter em ordem, ter em mente, ter em conta…
– O verbo ter, quando não exprime posse,  forma predicados complexos - cfr. verbos leves ou de apoio. Tratamos destes verbos em 14 de julho.
2.      O “que”, quando conjunção (integrante ou outra), não desempenha função (sujeito, complemento, predicativo...). Geralmente, inicia uma Proposição  ou liga, entre si, duas palavras ou atributos que desempenham a mesma função sintática.
3.       O que desta oração composta é conjunção integrante porque integra a oração subordinada substantiva na oração composta.
4.      Oração composta é UMA oração de que faz parte uma PROPOSIÇÃO.
5.      Proposição: é o nome que se dá a uma oração subordinada que desempenha função sintática dentro duma oração composta.
6.      A frase que analisámos é, pois, uma oração composta; dela faz parte  a proposição que não tinha os papéis em ordem.

 



terça-feira, 10 de junho de 2025

 

OS LUSÍADAS

Tese Camoniana 

Durante longos anos de trabalho sobre o Poema, e depois de ter consultado dezenas de Autores que dele disseram coisas, o meu único objetivo, ao publicar a sua versão para português atual em 2020, foi entendê-lo, e torná-lo legível e inteligível por todos os falantes da Língua portuguesa.

Um dia, porém, em que relia um qualquer dos seus feitos heroicos, apercebi-me de que, vencida uma batalha, Luís de Camões não celebrava o sucesso dos heróis, mas referia o seu agradecimento a Quem lhes tinha dado a vitória. E pareceu-me, então, que o objetivo do Poeta não era a glorificação dos heróis do Povo, mas o reconhecimento de que algo lhes estava a ser inexplicavelmente concedido (I- 25-1).

A Quem lhe(s) esta vitória permitiu

Dão louvores e graças sem medida,

Que, em casos tão estranhos, claramente

Mais peleja o favor de Deus que a gente. (Os Lusíadas, III-82)

Esta estrofe refere-se ao cerco da cidade de Santarém pelo rei de Marrocos, Ibn Yussuf, em 1184. A cidade foi descercada por D. Sancho I, a mandado de seu pai, D. Afonso Henriques que, depois do desastre de Badajoz, estava inativo. É certo que não pôde sair de Coimbra, mas D. Afonso terá sido determinante nesta vitória, já que o boato da sua vinda terá sido determinante para a fuga dos invasores.

Não há peito tão alto e tão potente

Que de desconfiança não se afronte,

Enquanto não conheça e claro veja

Que, co’o braço dos seus, Cristo peleja. (III-109 – Batalha do Salado) 

O mesmo em: IV- 45; VI-94; VIII-24; X-40, etc…

O Poema demonstra que Portugal é uma nação improvável.

Com Castela, e com todos os outros estados hispânicos, o país lutou pela independência e, surpreendentemente, venceu; contra os mouros, que dominavam o território havia mais de quatro séculos (desde 711), e que eram muito mais evoluídos tecnicamente, muito mais ricos e em muito maior número, Portugal conseguiu expulsá-los do território. Nos mares, a força dos Portugueses dominou os portos de África, criou e fixou-se na mais extensa nação da América do Sul, derrotou no Oriente as armadas egípcias, turcas e cambaicas, e exerceu lá a autoridade própria de um império.

Nem em fábulas sonhadas (X-20) seria imaginável tal poder num povo tão raro em gente.

O Poema demonstra que «Portugal agiu por determinação sua, mas que não era possível, por força sua, alcançar o domínio dos mares, a expansão territorial e a influência cultural em todo o Oriente». FOI-LHE CONCEDIDO (I-25-1).

E podemos ainda ver, só no Canto III, as estrofes 34, 43, 45, 46, 48, 54, 62, 82, 109 e 112 – como já antes as estrofes I-6; I-24 a 32, além de outras, muitas outras, até atingir a demonstração maior com a Máquina do mundo (X -91 a 142), um mapa gigantesco da presença dos Portugueses no mundo. Luís de Camões reservou para o final do Poema esta a demonstração inequívoca dum poder que está para além de um povo de reduzidos recursos e de pouca gente – e de tal modo lhe concede privilégio de demonstração que, em 64 imperativos, insiste com o leitor para que que olhe e veja,

É isto que está no Poema – é isto que eu lá vejo, ao fim de mais de 20 anos a lê-lo.