Árvores do Alentejo
Horas mortas....
Curvada aos pés do Monte
A planície é
um brasido e, torturadas,
As árvores
sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus
a bênção duma fonte!
E quando,
manhã alta, o sol pesponte
A oiro a
giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas,
recortam desgrenhadas
Os trágicos
perfis no horizonte!
Árvores!
Corações, almas que choram,
Almas iguais à
minha, almas que imploram
Em vão remédio
para tanta mágoa!
Árvores! Não
choreis! Olhai e vede:
- Também ando
a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!
Florbela Espanca
Florbela, poetisa alentejana, é natural de Vila Viçosa. Não é que isso seja importante para a nossa análise. Mas ajuda sabermos que ela conhece bem, e viveu, essa paisagem de que nos fala – e que também nós, neste agosto abrasador, estamos sofrendo.
PROPOSTA DE LEITURA
1. O soneto abre com uma notação de tempo: horas mortas… seguida, de imediato, por uma notação
de espaço: um vasto brasido povoado de árvores. Os versos 3 e 4
constituem o núcleo, o nó, a parte que justifica este soneto. Surge, neste nó,
a prosopopeia que possibilita a Florbela a humanização das árvores que, torturadas,
sangrentas, revoltadas, gritam a Deus pela bênção duma fonte.
2. Na 2.ª estrofe, em novo tempo (é, agora, manhã alta) e em novo espaço (ao longo das estradas) Florbela retoma o cenário dramático da 1.ª estrofe, ladeando as estradas com giestas amarelo-fogo, donde emergem, hirtas e desgrenhadas as árvores, tornando mais trágicos os sus perfis a recortar o horizonte.
3. No 1.º terceto, Florbela entra num novo espaço: em si mesma (almas iguais à minha) – e declara igual ao delas o drama da sua própria vida. Também ela anseia por remédio para a sua permanente mágoa.
4. No terceto final, atinge a confidência: não
choreis…Também eu ando a gritar a Deus por uma gota de água.
______________
A poesia não tem como objetivo a descrição do mundo; ela é, apenas, tentativa ansiosa de o poeta se rever, entender, a si próprio. Fala para se conhecer, e tem de falar, porque a necessidade de encontrar a expressão própria não lhe permite o silêncio. Daí, as obsessões poéticas. Cada um tem temas que o dominam – as suas obsessões – e a elas recorre uma vez e muitas vezes, não de modos muito diferentes. A poesia lírica tende a ser biografia sentimental do sujeito poético.