quinta-feira, 21 de agosto de 2025

       Árvores do Alentejo

Horas mortas.... Curvada aos pés do Monte

A planície é um brasido e, torturadas,

As árvores sangrentas, revoltadas,

Gritam a Deus a bênção duma fonte!

 

E quando, manhã alta, o sol pesponte

A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,

Esfíngicas, recortam desgrenhadas

Os trágicos perfis no horizonte!

 

Árvores! Corações, almas que choram,

Almas iguais à minha, almas que imploram

Em vão remédio para tanta mágoa!

 

Árvores! Não choreis! Olhai e vede:

- Também ando a gritar, morta de sede,

Pedindo a Deus a minha gota de água!

                                                                                                 Florbela Espanca

 

Florbela, poetisa alentejana, é natural de Vila Viçosa. Não é que isso seja importante para a nossa análise. Mas ajuda sabermos que ela conhece bem, e viveu, essa paisagem de que nos fala – e que também nós, neste agosto abrasador, estamos sofrendo.

PROPOSTA DE LEITURA

1. O soneto abre com uma notação de tempo: horas mortas… seguida, de imediato, por uma notação de espaço: um vasto brasido povoado de árvores. Os versos 3 e 4 constituem o núcleo, o nó, a parte que justifica este soneto. Surge, neste nó, a prosopopeia que possibilita a Florbela a humanização das árvores que, torturadas, sangrentas, revoltadas, gritam a Deus pela bênção duma fonte.

2. Na 2.ª estrofe, em novo tempo (é, agora, manhã alta) e em novo espaço (ao longo das estradas) Florbela retoma o cenário dramático da 1.ª estrofe, ladeando as estradas com giestas amarelo-fogo, donde emergem, hirtas e desgrenhadas as árvores, tornando mais trágicos os sus perfis a recortar o horizonte.

3. No 1.º terceto, Florbela entra num novo espaço: em si mesma (almas iguais à minha) – e declara igual ao delas o drama da sua própria vida. Também ela anseia por remédio para a sua permanente mágoa.

4. No terceto final, atinge a confidência: não choreis…Também eu ando a gritar a Deus por uma gota de água.

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A poesia não tem como objetivo a descrição do mundo; ela é, apenas, tentativa ansiosa de o poeta se rever, entender, a si próprio. Fala para se conhecer, e tem de falar, porque a necessidade de encontrar a expressão própria não lhe permite o silêncio. Daí, as obsessões poéticas. Cada um tem temas que o dominam – as suas obsessões – e a elas recorre uma vez e muitas vezes, não de modos muito diferentes. A poesia lírica tende a ser biografia sentimental do sujeito poético.

1 comentário:

Anónimo disse...

Tenho 66 anos e fui aluno do Grande Professor Virgílio Catarino Dias, no Liceu Nacional de Castelo Branco, no início da decada de 70 do século passado, já lá vão mais de 50 anos. Lembro-me perfeitamente de numa aula de português lermos e analisarmos este maravilhoso soneto. O professor explicou tudo tão bem, eu entendi, gostei e passei a gostar de poesia. Obrigado, Professor. U ABRAÇO. Ilídio Mateus