segunda-feira, 24 de novembro de 2025

 Pobre Língua portuguesa!

CHOQUE 1

Hoje chocamos, primeiro, com três professores de Português. Fui aluno de dois deles: Lindley Cintra e Malaca Casteleiro; quanto a Bechara, sou há anos estudioso da sua Gramática. O respeito por estes três professores não me impede de reconhecer algum erro seu no campo dos verbos copulativos, que maltrataram, mas sobretudo pelo descuido inexplicável de não reconhecerem os verbos semicopulativos. 

Devido a tal omissão, vejam como eles erraram a análise sintática nas três frases seguintes:

Frase 1 - Eles chamam-lhe fascista
Celso Cunha e Lindley Cintra propõem a seguinte análise:
Suj.: eles (indeterminado), predicado: chamam lhe; *complemento indireto: lhe; *predicativo do complemento indireto: fascista. (NGPC, p. 160).

E acrescentam: …admitem esse predicativo, por exemplo: crer, eleger, encontrar, estimar, fazer, julgar, nomear, proclamar e sinônimos [estes verbos não admitem predicativo, como eles dizem; são semicopulativos]

Frase 2 - Nós lhe chamávamos doutor  (Bechara, Gramática, p. 523.
Suj.: nós; predicado: chamávamos; *complemento indireto: lhe; *predicativo do complemento indireto: doutor.

Frase 3 - «considerava aquela gente simpática», *«simpática» exerce a função de nome predicativo do complemento direto.
(Prof. Malaca - Dicionário da Academia, na entrada predicativo). 

A cada um destes três professores teria bastado recorrer à forma passiva de cada uma das frases para verem que a sua proposta de análise está errada.

 Assim:
- eles chamam-lhe fascista – forma passiva: ele é chamado fascista por eles.
- Nós lhe chamávamos doutor: ele era chamado doutor por nós
- (ele) considerava aquela gente simpática: aquela gente era considerada simpática por ele

O sintagma verbal das 3 frases mostra, na forma passiva, que os atributos fascista, simpática, doutor fazem parte do SV (predicado); logo, já faziam parte do predicado na sua forma ativa – ou seja, deveriam ter-se dado conta da existência dos verbos semicopulativos. Eram professores  catedráticos!

CHOQUE 2

4. Mas o que é ainda mais grave é que as gramáticas escolares continuam a desconhecer a sintaxe destes verbos.  

5. O caderno n.º 3 do Ciberdúvidas, publicado no fim da semana passada (em 21 de novembro 2025) ignora não só a existência dos semicopulativos, como ainda continua a tratar mal os copulativos; insiste nos complementos oblíquos, que não têm qualquer fundamento, e ignora os predicativos que classifica como modificadores. Uma ignorância sintática inexplicável!

O texto seguinte é uma só demonstração dos muitos erros que povoam este caderno de Sintaxe, publicado pelo Ciberdúvidas.

(3) «As professoras, muito entusiasmadas, sorriram. (Caderno 3, p.58 )

A função sintática desempenhada pelo adjetivo identifica-se pelo facto de este incidir sobre o grupo nominal, independentemente da sua posição na frase. Uma vez que não constitui um complemento pedido pelo nome professora, desempenha a função de modificador do nome. Trata-se em particular de um modificador apositivo (Caderno .º 3, p. 58)

Como sempre, nunca acuso sem demonstrar os erros. E aqui segue a explicação:

As professoras, muito entusiasmadas, sorriram
Suj.: as professoras; predicado: sorriram – mas, agora, ainda sobre o sujeito (as professoras) há uma segunda predicação. Muito entusiasmadas é um predicado secundário, um PREDICATIVO do sujeito.

As gramáticas francesas chamam a este tipo de predicativo  une  prédication seconde (R. Eluerd, Grammaire descriptive…p.136); as gramáticas portuguesas definiam-no como predicado secundário – ou PREDCATIVO, que tanto pode ser do sujeito, como de qualquer complemento. O Ciberdúvidas chama-lhe modificador... 

Não saber identificar um predicativo e classificá-lo de modificador não seria aceitável para alunos do 9º ano. Mas os autores do Ciberdúvidas e  presumíveis autores destes CADERNOS são professores com doutoramento!

Pobre Língua portuguesa!


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