segunda-feira, 10 de novembro de 2025

 

Uma aula de Português atual


O Palácio da Ventura

Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do Amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!
 
Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!
 
Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais!
 
Abrem-se as portas de ouro, com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão - e nada mais! 

                                                                                    Antero de Quental - Sonetos 

1.      Tirar significados: era, então, muito importante, e trabalhosa, a consulta do dicionário.

a)      - paladino (v.3): é um indivíduo destemido, cavalheiresco, disposto a defender as causas justas.

 Frase de contexto: Eça, O Crime do P. Amaro, p.88:

Olhava agora João Eduardo com respeito, aquele João Eduardo que se lhe revelava inesperadamente um paladino do livre‑pensamento.

[O João Eduardo era um entusiasta, um defensor, um paladino do livre-pensamento]

 

b)     -anelante (v.3) - ansioso, que deseja ardentemente.

 Frase de contexto: Camilo, Amor de Perdição, cap. XIX- p.170 – IN (imprensa nacional); 

O que é o coração, o coração dos dezoito anos, o coração sem remorsos, o espírito anelante de glórias, ao cabo de dezoito meses de estagnação da vida? 

2.A descoberta do sentido do texto:

No verso 1 o sujeito poético declara o tema da sua composição literária: Sonho que sou um cavaleiro andante – e, logo nos 3 versos seguintes, refere as dificuldades próprias dum cavalheiro destemido e entusiasta (paladino) que, a todo o custo, aspira à felicidade no amor (o palácio da ventura).

Na estrofe 2, versos 6 e 7, surge uma quebra do seu entusiasmo (um nó): o herói está exausto e vacilante.

Mas, subitamente (versos 7 e 8) nova esperança lhe dá ânimo: a visão do PALÁCIO…

No 1º terceto (versos 9, 10 e 11), à porta do Palácio, acontece o apogeu da esperança.

Abertas, porém, as partas de ouro (versos 12, 13 e 14), silêncio, escuridão - e nada mais…

 

Que título porias tu a a este soneto? -  DO ENTUSIASMO À DESILUSÃO.


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