quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

 A PREPOSIÇÃO DESDE versus LOCUÇÃO CONJUNCIONAL DESDE QUE

1. O pai do rapaz informou sua mulher da vinda do filho, mas não desejava vê-lo desde que ele abandonou os estudos.

Oração composta

Suj. o pai do rapaz; predicado; informou sua mulher da vinda do filho; complemento direto: sua mulher; complemento adverbial de tema ou assunto: da vinda do filho.

O verbo informar, além de complemento direto, seleciona complemento circunstancial de tema ou assunto. Tanto um complemento como o outro são complementos argumentais.

- mas não desejava vê-lo desde que ele abandonou os estudos

Oração coordenada adversativa
Suj.: ele (pai); predicado: não desejava vê-lo; complemento direto: (l)o; adjunto adverbial de tempo: desde que ele abandonou os estudos.


- (desde) que ele abandonou os estudos
Oração relativa adverbial de antecedente incorporado

Desde é uma preposição, e o seu termo tanto pode ser um substantivo (desde o abandono dos estudos), um advérbio (desde então, desde sempre) ou uma oração relativa adverbial de antecedente incorporado, equivalente a desde quando ele abandonou os estudos – Nestes casos, o verbo está em modo indicativo.

Mas se desde que apresentar sentido de condicional é uma locução conjuncional condicional, e terá o verbo no conjuntivo, como é evidente na frase seguinte:

2.Todos os caminhos são bons desde que sejam caminhos (V. Ferreira, alegria breve,184).

Oração composta
Suj.: todos os caminhos; predicado: são bons; adjunto adverbal de condição: desde que sejam caminhos.


- desde que sejam caminhos (se forem…)

Proposição subordinada condicional
Suj.: eles (os caminhos); predicado: sejam caminhos

(desde que com verbo no modo conjuntivo: locução conjuncional condicional)

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

A sintaxe do verbo mandar e outros 

Quando, em pequeno, eu era aluno de Latim, logo no 1.º ano (lá para o fim) traduzíamos textos das cartas familiares de Cícero e muitos textos do De Bello Gallico, de Júlio César.
Nunca mais me esqueci duma das primeiras frases que me surpreenderam: «Caesar iussit pontem fieri». 
 
Na Língua latina, as orações infinitivas têm o sujeito sempre expresso, e em acusativo. Por isso, César não «mandou fazer uma ponte» a fim de que o exército progredisse no terreno, mas «mandou que uma ponte fosse feita», assim: Caesar iussit pontem fieri. [pontem, em acusativo, é sujeito de fieri (ser feita)]. 
 
Em português a Língua permite-nos dizer que «César mandou fazer uma ponte», porque dispomos do infinito pessoal que não existia em Latim. Mas, como em Latim, o verbo mandar seleciona oração infinitiva, e o seu sujeito, se for um pronome pessoal, tem de assumir a forma de complemento, assim: 
 
Eu mandei-te estudar Latim - (-te é sujeito de estudar]
Oração composta
Suj.: eu; predicado: mandei-te estudar Latim; complemento direto: -te estudar Latim
 
-te estudar Latim
Proposição subordinada infinitiva, substantiva
Suj.: te; predicado: estudar Latim; compl. direto: Latim

Esta análise é a mesma de «o amor fez o poeta sofrer» ou de «o amor fê-(l)o sofrer» em que o sujeito da oração infinitiva (ele) toma a forma de complemento. 

sábado, 24 de janeiro de 2026

Ainda a análise da frase “O amor fez o poeta sofrer”

Há uma frase popular que recomenda “no que está bem não se mexe”; e a análise que eu fiz desta oração no blogue precedente não tem alternativa.

Proponho hoje duas orações [estruturalmente iguais a «O amor fez o poeta sofrer»]

1.- Dizem que a terra escraviza (Agustina, A Sibila, p. 76)
Oração composta
Suj.: indeterminado (eles); predicado: dizem que a terra escraviza; compl. direto: que a terra escraviza.

[Dizem não é oração: falta-lhe o compl. direto. Por isso dizemos há dezenas de anos que não há orações subordinantes. Os verbos transitivos NUNCA podem perder o contacto com os seus complementos, sejam eles nomes (substantivos) ou frases (que a terra escraviza).

As proposições (orações subordinadas) são parte de UMA ORAÇÃO COMPOSTA, e nela desempenham função sintática (frequentemente são sujeito ou complemento direto). «que a terra escraviza» é complemento direto de DIZEM. A oração (que a terra escraviza) foi compl. direto na oração composta – mas isto não impede que tenha análise própria com o nome de PROPOSIÇÃO.

- que a terra escraviza
Proposição subordinada integrante, substantiva
Suj.: a terra; predicado: escraviza


2.- Terra que dá desta fruta é boa terra. (Camilo, Eusébio Macário, p.34)
Oração composta
Suj.: terra que dá desta fruta; predicado: é boa terra

- As proposições subordinadas relativas (que dá desta fruta) são adjetivas. Logo, na análise sintática elas ocupam a posição própria dos adjetivos. Por isso, o sujeito desta oração é «terra que dá desta fruta».

- que dá desta fruta
Proposição subordinada relativa, adjetiva.
Suj.: que (antec.: terra); predicado: dá desta fruta; compl direto preposicionado: desta fruta.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026


O amor fez o poeta sofrer

Um colega apresentou dúvidas na análise sintática da frase: «O amor fez o poeta sofrer.». 

A sua análise foi: 

(1) «[O amor fez] oração subordinante;

2. [o poeta sofrer] oração subordinada completiva infinitiva.»

Ora, isto não faz sentido nenhum!

De seguida, ainda acrescenta: se a frase fosse «O amor fez o poeta infeliz» teríamos um complemento direto («o poeta») e um predicativo do complemento direto («infeliz»). Nada disto está certo!

Frase 1

1.- O amor fez o poeta sofrer

Oração composta 
Suj.: o amor; predicado: fez o poeta sofrer; compl. direto: o poeta sofrer


- o poeta sofrer 
Proposição completiva, infinitiva, substantiva

Suj.: o poeta; predicado: sofrer

«O amor fez» não é oração. O compl. direto tem de estar expresso por um nome ou por uma oração subordinada substantiva, assim: o amor fez o poeta sofrer. Estamos, pois, perante  UMA oração composta. Não existem orações subordinantes.

Frase 2

O Colega admite ainda uma outra hipótese: a oração

 «O amor fez o poeta infeliz» que analisa assim: complemento direto («o poeta») e um predicativo do complemento direto («infeliz»). Não! 

O amor não fez o poeta, mas fez infeliz…, tonou infeliz…, fez ficar infeliz o poeta. E a análise é: Suj.: o amor; predicado: fez infeliz o poeta; compl. direto: o poeta.

O verbo fazer, aqui, não é verbo PLENO, mas SEMICOPULATIVO, cfr. textos deste mesmo blogue em 1, 15 e 21 do passado mês de maio.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

  

   ORAÇÕES INFINITIVAS - PROPOSIÇÕES ADVERBIAIS GERUNDIVAS -   PERÍFRASES

1 - Ricardo estava em Belém, quando eles desembarcaram; e, ouvindo‑os falar inglês, ofereceu‑lhes o seu préstimo, que o viajante aceitou agradavelmente. (Camilo, O Demónio do Ouro, p. 104)

Ricardo estava em Belém quando eles (Johnson Fowler, que desfalcou a empresa, mudou de nome, e está agora acompanhado por amante francesa

Ricardo estava em Belém, quando eles desembarcaram
Oração composta
Suj.: Ricardo; predicado: estava em Belém; adjunto adverbial de tempo: quando eles desembarcaram.

Quando eles desembarcaram
Proposição adverbial relativa livre
Suj.: eles; predicado: desembarcaram

E, ouvindo-os falar, ofereceu-lhes o seu préstimo
Oração coordenada copulativa
Suj.: ele (Ricardo); predicado: ofereceu-lhes o seu préstimo; complemento direto: o seu préstimo; adjunto adverbial de tempo ou de causa: ouvindo-os falar [quando os ouviu – porque os ouviu falar].


Ouvindo-os falar
Proposição adverbial gerundiva de tempo ou causa
Suj. ele (Ricardo); predicado: ouvindo-os falar; complemento direto: -os falar (eles falar)


- os falar
Oração infinitiva substantiva
Suj.: os (eles: Johnson Fowler e a amante); predicado: falar

2 - Maria, imóvel e resignada, começou a falar (Agustina, Sibila, 37)
Oração simples
Suj.: Maria; predicado: começou a falar; predicativos do sujeito:  imóvel e resignada.

Perífrase: acontece quando dois ou mais verbos constituem uma unidade sintática, um predicado:  têm ambos o mesmo sujeito, e o 2.º verbo não é complemento do primeiro.
Por isso, ouvindo-os falar não é perífrase, porque quem ouve não é quem fala;  
Mas, na frase 2, começou a falar é perífrase, porque os dois verbos têm o mesmo sujeito.

3 - Não te posso dizer mais nada a respeito dessa mulher (Camilo, O Demónio do Ouro, 105)

Oração simples
Suj.: eu; predicado: não te posso dizer mais nada a respeito desse mulher; compl. direto:  mais nada; compl. indireto: -te; complemento preposicionado de tema ou assunto: a respeito dessa mulher
.

 Posso dizer é perífrase – porque posso e dizer têm o mesmo sujeito.

[A respeito delocução preposicionada: sobre, acerca de…; introduz complementos preposicionados de tema ou assunto]

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Os pronomes pessoais tomam a forma de complemento
quando são sujeito de orações infinitivas   

 Retirei de Machado de Assis, Quincas Borga, o texto seguinte:

— O senhor para onde vai? perguntou Carlos Maria ao Freitas.
Freitas calculou que ele iria a alguma visita para os lados de São Clemente, e quis
acompanhá-lo.
— Vou até o fim da praia, disse.
— Eu volto para trás, tornou o outro.

CAPÍTULO XXXIII

1.       Rubião viu-os ir…

Nesta frase ttão pequenina temos 1 (uma) oração, que é composta
Suj.: Rubião; predicado: viu-os ir; complemento direto: -os ir [Rubião viu eles ir].

     - os ir
Proposição infinitiva substantiva
Suj.: -os; predicado: ir.
 
[Esta análise é assim, e não pode ser de qualquer outro modo].
O que é que Rubião viu? -  viu eles ir.

 [Eles ir é complemento direto do verbo ver. O sujeito das orações infinitivas toma a forma de complemento, como veremos já na frase seguinte]

2.       O Rubião viu-me sair de casa para a praia [viu *eu sair)
Oração composta
Suj.: o Rubião; predicado: viu-me sair de casa para a praia
 

[O que é que o Rubião viu? Viu ME SAIR DA CASA PARA A PRAIA]; Complemento direto: me sair de casa para a praia 

- me sair de casa para a praia
Proposição infinitiva, substantiva
Suj.: me; predicado: sair de casa para a praia; complemento adverbial de lugar donde: de casa; complemento adverbial de lugar para onde: para a praia.

Porque é que viu-me e sair não formam um só predicado? – porque vir e sair têm sujeitos diferentes, assim: Rubião viu  eu (me) sair. O mesmo acontece na oração seguinte. assim:

3.       Ouvi-te dizer que a sintaxe é difícil
Oração composta
Suj.: eu; predicado: ouvi-te dizer que a sintaxe é difícil; complemento direto: te dizer que a sintaxe é difícil
 
-te dizer que a sintaxe é difícil
Proposição completiva, infinitiva, substantiva
Suj.: -te; predicado: dizer que a sintaxe é difícil, complemento direto: que a sintaxe é difícil

- que a sintaxe é difícil
Proposição integrante, substantiva
Suj.: a sintaxe; predicado: é difícil.

Em conversa com um Professor de larga experiência no ensino da Língua portuguesa, confessou-me ele que, de facto, assim é a análise sintática, e que assim deveria ser ensinada e praticada, mas que muitos Colegas, que nunca estudaram Latim, não estão preparados para assim a ensinarem. Lamentei, e lamento profundamente. É pela SINTAXE que se chega à LITERACIA da Língua portuguesa.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

 O valor semântico dos adjuntos
 o caminho mais adequado para a Literacia.

Não basta que, na análise sintática, um aluno reconheça a presença de adjuntos – como agora dá apenas conta da presença de modificadores. No ensino da Língua portuguesa, deveria ser obrigatória a classificação semântica de qualquer adjunto, assim: adjunto adverbial de tempo, de lugar (onde, donde, para onde, por onde) de causa, de fim, ... de modo, de origem ou procedência, de matéria, de assunto ou matéria tratada, de companhia, de instrumento, de quantidade, de valor ou preço, etc…. Será pela aprendizagem do valor semântico que os alunos atingirão a LITERACIA - o nível de conhecimento que os levará à apreensão fácil  do sentido das suas leituras. E, também, porque quem quiser estudar Latim, deparar-se-á com modos de expressão própria de cada um dos diversos adjuntos.  

Nas muitas dezenas de frases que temos analisadas neste blogue deparámos já com todos estes adjuntos ou complementos. Aqui, TODOS, TODOS, TODOS podemos aprender sintaxe de modo fácil....

Análise

Na capela de Nossa Senhora do Amparo, padroeira da Casa Grande, viram barrela pela primeira vez toalhas e frontais (Aquilino, A Casa Grande Romarigães, p. 84)

Frontais: peças, em geral de seda ou linho, que ornamentam a frente dos altares.

Suj.: toalhas e frontais; predicado: viram barrela pela primeira vez; compl. direto: barrela; adjunto adverbial de tempo: pela primeira vez; adjunto adverbial de lugar onde: na capela de N. Senhora do Amparo, padroeira da Casa Grande.

ANOTAÇÕES

1.       Nossa Senhora do Amparo, padroeira da Casa Grande

Algumas gramáticas classificam o 2º sintagma como modificador restritivo do nome apositivo. Está errada tal classificação.

Os apostos não são modificadores – mas, apenas, nomes ou grupos nominais equivalentes, em que o segundo, entre vírgulas, explica, identifica ou equivale ao primeiro, podendo mesmo trocar com ele a sua posição na frase. Os Apostos poderão substituir-se um pelo outro, NÃO SÃO MODIFICADORES.

2.Toalhas e frontais viram barrela pela primeira vez.

Esta frase está correta, e é gramatical.

Mas Aquilino quis dizer-nos onde isto aconteceu, adicionando ou juntando a esta frase um sintagma de valor locativo (na capela de Nossa Senhora do Amparo, padroeira…). Aos sintagmas adicionados, não selecionados pela estrutura da frase, dá-se o nome de ADJUNTOS.

3.      Pela primeira vez: adjunto adverbial de tempo.

Este sintagma não é imposto pela estrutura da frase. Se o retirarmos, a frase manter-se-á gramatical, correta. Os adjuntos (sintagmas não selecionados) são opcionais. 

Preferem algumas gramáticas dar-lhes o nome de modificadores. Não vemos qualquer justificação para tal designação. Antes de mais, e de facto, não modificam nada: são sintagmas adicionados, juntados opcionalmente às frases – logo, são ADJUNTOS.

Em Sintaxe, devemos ter em consideração o valor semântico dos termos que usamos. Adjunto e modificador NÂO são termos equivalentes.