segunda-feira, 11 de maio de 2026

 Testes sintáticos

Andam por aí gramáticas que, para se fazerem crer ao identificarem funções sintáticas, recorrem a “testes pergunta-resposta” que tanto podem valer para demonstração dum argumento como do seu contrário. A sua pretensa validade depende só do modo de perguntar para se obter a resposta que se deseja. Foi o que aconteceu com o teste sintático que o Ciberdúvidas apresentou na passada sexta-feira, quando quis demonstrar que o verbo sentar-se seleciona complemento oblíquo, mas não é verdade.

O verbo sentar-se não seleciona complemento – nem os “testes pergunta-resposta" têm qualquer validade. O estudo da Língua é em textos da Literatura que deve procurar os seus fundamentos; nela, e não em testes forjados.
Vamos, pois, à Literatura:

De Camilo Castelo Branco:
1. Maria Elisa …fazia carantonhas que “obrigaram Rosa a sentar-se de ilharga por não poder conter o riso. (Camilo, A filha do Arcediago, pag.94) 
2. Esteja a seu bel-prazer e queira sentar-se — disse Elisa… (idem, p.102)
3. Antes de sentar-se, perguntou-me que razão tivera eu para retirar-me (p.247)

De Agustina Bessa-Luís
4. Criara Paula com bons exemplos e mandara-a educar por freiras que a ensinaram a falar com rapazes e a sentar-se com decência e orgulho, o que é muito difícil de aprender. (Agustina, A Ronda da Noite, p.46).
5. Não voltava a sentar-se; os homens ficavam sós. (idem, p. 57)

A Língua portuguesa dá-nos liberdade para nos sentarmos ou não – e respeita a nossa opção por qualquer banquinho que possa ser-nos cómodo…ou por ficarmos de pé...

A função sintática descrita no Ciberdúvidas como complemento do verbo sentar-se está errada; trata-se dum adjunto adverbial de lugar onde. Quanto ao adjetivo oblíquo não o encontro como designação de função sintática em nenhuma gramática fidedigna.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

 As duas frases
que o Ciberdúvidas publicou em 5 deste mês
têm a seguinte análise:


1.«Este feito foi inédito em Portugal.»
Oração simples
Sujeito: este feito; predicado: foi inédito em Portugal; adjunto adverbial de lugar onde: em Portugal.

Os verbos copulativos são vazios de sentido, logo, não podem ser predicado.… Mas, por poderem ser portadores de atributos, têm de ser estes (os atributos) a parte semântica do predicado.

As duas orações seguintes, de F. Namora, não tendo sujeito, nunca poderiam ter predicativo do sujeito, evidentemente…

É noite, já não é tempo de desforras... (Fernando Namora, A Noite e a Madrugada, 95).

É noite
Oração simples
Suj.: nulo; predicado: é noite

- já não é tempo de desforras
Oração coordenada copulativa assindética ou justaposta
Suj.: nulo; predicado: já não é tempo de desforras

2.«Elvira Fortunato foi pioneira na investigação europeia sobre eletrónica transparente»'
Oração simples
Suj.: Elvira Fortunato; predicado: foi pioneira na investigação europeia sobre eletrónica transparente; complemento adverbial de tema ou assunto: sobre eletrónica transparente; adjunto adverbial de lugar onde: na investigação europeia.

Esta oração informa-nos sobre o tema ou assunto em que Elvira Fortunato foi pioneira. Por isso o segmento preposicionado sobre eletrónica transparente é um complemento nominal preposicionado de assunto ou matéria tratada (ver Bechara, p. 545).
Também esta oração informa o leitor sobre a localização imaterial do seu sucesso: na investigação europeia.



terça-feira, 5 de maio de 2026

 A ANÁLISE SINTÁTICA
caminho de excelência para a Literacia

Parece que estamos, finalmente, numa fase de reconhecimento do estado deplorável em que se encontra o ensino da Língua portuguesa nas nossas escolas. Será que desse reconhecimento passaremos, finalmente, à solução? Espero que sim. Eu ando, insistentemente, há muitos anos, a tentar isso mesmo.
Primeiro, tentei no Ciberdúvidas. Colaborei com entusiasmo, mas por muito pouco tempo. O meu objetivo, a divulgação dum novo método de análise sintática, não era compatível com o Dicionário Terminológico. Em 2014, criei este blogue, e nele tenho trabalhado, divulgando o novo modo análise sintática, com base em textos da Literatura.
Aqui está disponível todo o novo modo de análise sintática, explicada, demonstrada, repetida em frases dos mais diversos autires: Camilo, Eça, Agustina, Saramago, Nemésio, Redol, Soeiro Pereira Gomes, Namora, e outros. A Sintaxe é a ciência por excelência da Língua portuguesa – é o seu estudo que nos leva à Literatura, à Poesia, a todo um mundo de cultura em que dá gosto viver.
Literacia e Sintaxe
Duas palavras básicas definem o conceito de Literacia: capacidade de compreensão dum texto e possibilidade de os alunos, por expressão própria, poderem transmitir, com clareza, as ideias dos textos que lêem.
COMO CHEGAR À LITERACIA?
Muitos caminhos são possíveis, mas o método mais eficiente para lá chegar é, certamente, o estudo de modelos de análise sintática sobre textos de obras da Literatura em Língua portuguesa.
Nunca a Sintaxe foi ensinada assim, mas este é o caminho certo.
Passados mais de 50 anos, quando no antigo 5.º ano (agora 9.º) se estudavam Os Lusíadas nas Escolas, iniciei a prática deste método - e ainda hoje alguns alunos me manifestam o entusiasmo com que descobriam as orações sintáticas, as analisavam e, sobretudo, facilmente revelavam o seu sentido.
Este método de análise, além de seguidores em Portugal e nos países da CPLP é seguido por muitos mais no estrangeiro: Estados Unidos, Alemanha, Áustria, Singapura, Japão e outros que ainda mais me surpreenderam: Singapura e Coreia do Sul…
Neste dia 5 de maio de 2026, não posso deixar de chamar a atenção para Os Lusíadas, nos quais trabalhei intensivamente durante 13 anos, para tornar a sua leitura acessível. Foram publicados em 2020, numa edição cartonada e de bela apresentação, quando as livrarias estavam encerradas devido à pandemia.
Rejeitados incompreensivelmente Rede de Bibliotecas Escolares, na av. 24 de Julho, negada a sua aceitação pelo Instituto Camões, que nem me respondeu à oferta de alguns exemplares, negada a edição pela Imprensa Nacional, mereceram o apoio da Câmara Municipal de Castelo Branco que adquiriu umas centenas de exemplares que distribuiu pelas Escolas do Concelho.
Publicados no GOOGLE em https://play.google.com/.../Os_Lus%C3%ADadas_Texto_Vers... , têm encontrado leitores nas mais longínquas paragens, tendo servido já de apoio a tradutores que na Ásia insistem em não deixar esquecer o Poema que, além de Portugal, celebra também os seus Povos.
O link para aceder ao Poema conduzirá o leitor, sem quanquer custo, às primeiras 80 páginas do Poema. Nelas verá como é, agora, fácil de ler e gostar de ler Os Lusíadas.
Estes dois trabalhos, Análise sintática e Lusíadas, são o meu modo de homenagear hoje a Língua portuguesa.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Verbos Plenos / Verbos semicopulativos 

 achar; reputar; ter na conta de; ter por…

Estes verbos, entre outros, numas situações são verbos PLENOS, noutras são semicopulativos. [Verboss transitivo-predicativos há muito que desaparecerem]

Noções básicas:

1. Verbo pleno: O professor considerou a tua resposta  

– Considerar é, aqui, verbo pleno. Nesta oração 1, o significado de considerar é: observar atentamente, ponderar, examinar

E a análise sintática desta frase  é: 
Suj.: o professor; predicado: considerou a tua resposta; compl. direto: a tua resposta. A forma passiva desta oração seria: A tua resposta foi considerada pelo professor.

2. Verbo semicopulativo: O professor considerou-te preguiçoso.

Na frase 1 o professor considerou-te; na frase 2, ele NÃO te considerou, mas magoou-te, teve-te na conta de preguiçoso.

O verbo considerar é o mesmo nas frases 1 e 2. Mas, na frase 2, é o atributo que impõe ao predicado o seu significado - exatamente como acontece nos verbos copulativos.

Os verbos considerar, achar, julgar, eleger, nomear…, podem ser PLENOS (oração 1) mas também podem ser portadores de atributos (oração 2) – e, neste caso, o seu comportamento sintático é o mesmo dos copulativos – por isso são SEMICOPULATIVOS.

Recordemos, e nunca esqueçamos: os verbos copulativos são totalmente vazios de sentido; porque nada significam, não podem cumprir a função de predicado. Recorrem, por isso, a palavras lexicais (atributos) – e são estes o núcleo semântico do predicado. Tanto os verbos copulativos como os semicopulativos NADA têm a ver com predicativos, sejam estes do sujeito ou de qualquer complemento.

O Dicionário da Academia e o Ciberdúvidas deveriam atualizar os seus conceitos sintáticos. É inaceitável que se continue a falar em verbos transitivo-predicativos, em predicativos do sujeito impostos por verbos copulativos, em complementos oblíquos, e, ainda, na trapalhada dos modificadores restritivos do nome, além de outros … 

E, já agora...

Há poucos dias o Ciberdúvidas foi a uma Escola,  tendo  a lição incidido sobre as possíveis funções sintáticas do pronome pessoal complemento me. Foram explicadas as funções de complemento direto e indireto. Bem, mas... E a função de sujeito?  Se os alunos me viram chegar atrasado àaula, o pronome pessoal me é sujeito de chegar. Porque terá sido omititida tal função?

Eu faço a análise sintática da oração, pois é provável que alguém tenha dúvidas...

Os alunos viram-me chegar atrasado à aula
Oração composta
Suj.: os alunos; predicado: viram-me chegar atrasado à aula; complemento direto: -me chegar  atrasado à aula


-me chegar atrasado à aula 
Proposição infinitiva substantiva [ ou oração subordinada infinitiva, substantiva]
Suj.: me; predicado: chegar atrasado à aula; complemento adverbial de lugar aonde: à aula;  predicativo do sujeito: atrasado.

No Português muito velhinho (o Latim) o sujeito das orações infinitivas ia para o caso ACUSATIVO - e isso acontece ainda hoje... É assim a Língua portuguesa!


terça-feira, 17 de março de 2026

 

ORAÇÕES SUBORDINANTES?

Há quase duas dezenas de anos que digo, e demonstro, que não há orações subordinantes – e não há mesmo! – mas, infelizmente, ninguém quer raciocinar cinco minutos para deparar com a evidência.

Mas eu continuo a tentar... 

1. O João diz a verdade:

Oração simples. 
Sujeito: João; predicado: diz a verdade; complemento direto: a verdade

 

2. O João diz que não mente.
(uma só ideia, expressa por dois predicados)
 Oração composta 

Suj.: João; predicado: diz que não mente; compl. direto: que não mente.

Esta oração (que não mente) é  parte da oração composta, é o seu complemento direto.

Todas as orações subordinadas estão nesta mesma situação: todas elas  desempenham função sintática em orações compostas. Por isso, para lhes marcar a subordinação, tomaram o nome de proposições. 

Assim, a oração que não mente  depois de ser classificada de complemento direto na oração composta  -  deverá ser classificada e analisada como PROPOSIÇÃO  integrante substantiva, assim:

- que não mente
Proposição integrante substantiva
Suj.: ele (João); predicado: não mente

Verá alguém a possibilidade de João diz ser uma oração? Claro que não... Como chamar-lhe oração subordinante?




 


terça-feira, 10 de março de 2026


Uma Oração Apositiva

 

 O Ciberdúvidas é hoje confrontado com um pedido de análise sintática do último verso de O QUINTO IMPÉRIO de Fernando Pessoa:

Grécia, Roma, Cristandade
Europa – os quatro se vão
Para onde vai toda idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?

O Poeta, depois de demonstrar que tudo tem um fim, interroga: quem virá que possa conviver com esta verdade: que morreu D. Sebastião?

Sintaticamente, este verso deve classificar-se como oração apositiva oracional, especificativa do nome verdade.

E, já agora, do P. António Vieira, Sermões II. 131:

Vede se é certa a minha verdade, que não há verdade no Maranhão. 

Oração composta
Suj.: vós; pred.: vede se é certa a minha verdade; compl. direto: se é certa a minha verdade…
 
 
- se é certa a minha verdade, que não há verdade no Maranhão
Proposição subordinada, interrogativa indireta, substantiva
Suj.: a minha verdade (que não há verdade no Maranhão); predicado: se é certa

 - que não há verdade no Maranhão 

Oração apositiva, explicativa, substantiva

Suj.: não tem; predicado: não há verdade no Maranhão; compl. direto: verdade:; adjunto adverbial de lugar onde: no Maranhão.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

 OS PREDICATIVOS

Predicativos são predicações secundárias sempre referidas ao sujeito ou a qualquer complemento. 

1.Em qualquer oração, é o Predicado que presta a informação essencial sobre o sujeito. Por vezes, porém, a frase (o seu Autor) adiciona informação que vai além da do Predicado, recorrendo a predicativos, não só do sujeito como de qualquer complemento.

2. Os predicativos são informação sempre dispensável, sempre opcional - mas muito útil pelas informações intercalares de que são portadores.

3. Um predicativo nunca tem de estar numa oração; e, se nela está, pode sempre dela ser retirado, mantendo-se a frase gramatical. Hoje, 23 de fevereiro de 2026, o Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa ainda afirma: “Na frase «A criança está contente», «contente» exerce a função de nome predicativo do sujeito”. Na frase «considerava aquela gente simpática», «simpática» exerce a função de nome predicativo do complemento direto.”. Claro que estas afirmações irão ser corrigidas – como outras, igualmente inaceitáveis. Muito me surpreende que também os verbos semicopulativos sejam ainda ignorados neste Dicionário. E não só...

Predicativos do Sujeito

1. Marta, com um pavor na vista, tremia, de pé, encostada à cómoda. (Camilo, A Brasileira de Prazins, 248).

Esta frase de Camilo Castelo Branco fala-nos de Marta (sujeito) e dela se diz que tremia (predicado). O Sujeito + o predicado seriam suficientes para formar uma oração, uma frase: Marta tremia.

Mas Camilo quis adicionar outras informações sobre Marta (sujeito), e recorreu a três predicativos: com um pavor na vista - de pé - encostada à cama. Porque Marta é sujeito, as três informações adicionadas, opcionais, que a ela se referem, são predicativos do sujeito.

Predicativos do sujeito são atributos que, dentro duma oração, prestam informação (secundária e opcional) sobre o sujeito.

- [mas os mesmos predicativos seriam do complemento direto se Marta fosse complemento direto, assim: Eu vi Marta (compl. direto); com um pavor na vista, de pé, encostada à cómoda.

É este, só este, o modo de funcionamento dos predicativos.