Uma teimosia que persiste no disparate
1.Achei o teu livro na biblioteca da Escola
2.Achei o teu livro muito interessante
Nunca devemos iniciar a análise sintática duma frase sem prestar uma profunda atenção ao verbo do predicado. Nas duas frases que nos servem de tema, deveremos pensar: eu achei um livro, ou achei interessante um livro?
Se eu achei um livro que estivesse perdido, o verbo é PLENO, robusto, senhor do seu nariz. Achei mesmo o livro! E a análise é: suj.: eu; predicado: achei o teu livro; complemento direto: o teu livro; adjubto adverbial de lugar onde: na biblioteca da Escola
Mas, na frase 2 o sujeito (eu) não achou um livro que estivesse perdido, mas achou interessante um livro.
Quando (1) eu acho o teu livro na biblioteca, ou (2) acho o teu livro interessante, a forma inicial da frase é a mesma, mas o sentido (o significado) das frases 1 e 2 é totalmente diferente. Na 1 eu acho uma coisa que estava perdida; na 2, eu não acho nada, mas acho interessante, parece-me interessante... ou ainda: para mim, o teu livro é interessante.
O mesmo acontece com as frases seguintes: se eu chamo o João para a aula ou se eu chamo o João parvo, notarão que estamos perante situações totalmente diferentes, sendo as palavas quase todas as mesmas! E isto só por um motivo: na frase 1 o verbo é pleno; na 2 é semicopulativo.
Como pode qualquer professor de Língua portuguesa ignorar, ou não sentir obrigação de ensinar isto aos seus alunos?
Quando a SINTAXE moderna caiu na conta de que o modo de funcionamento dos verbos NÃO PLENOS é o mesmo que o dos verbos copulativos - e isso foi acontecendo a partir de 1999 - logo foi abandonada a classificação de transitivo-predicativos. E isto tinha de acontecer, porque os verbos ditos transitivo-predicativos não mantêm na sua forma passiva o mesmo sentido da forma ativa - como demonstrámos no nosso post anterior (2 de setembro)
São evidentes os erros de SINTAXE que venho há muito denunciando: na Gramática de Bechara, no Dicionário da Academia, no caderno nº 3 do Ciberdúvidas - como também na Gramática de Língua portuguesa da Porto Editora, para os anos 10,11 e 12.
Apesar dos meus reparos, os responsáveis pela pureza da Língua portuguesa e, sobretudo, pelo seu ensino, ostentam total indiferença perante esta situação!. Já, por escrito, e também por mail, alertei a Academia das Ciências de Lisboa que nem sequer me respondeu! Mas são eles, e o Ministério da Educação, os responsáveis máximos pela tristíssima figura de Portugal na classificação do PISA! E a situação poderá ainda ser mais vergonhosa se não puserem já fim ao detestável DT, e não recuperarem o ensino obsessivo da Sintaxe, que é o único caminho que pode levar os nossos alunos à LITERACIA.
Ninguém poderá criticar a minha insistência na denúncia dos graves erros que andam a ser ensinados aos alunos. Tenho insistentemente explicado a Sintaxe escolar moderna. Todas as questões gramaticais (sintaxe) que tenho criticado estão explicadas no mesmo local da critica - mas os responsáveis desta situação continuam a olhar para o lado, indiferentes a este tema fundamental da Língua, de que eles, certamente, nem se apercebem... Ignorantes!
Pobre Língua portuguesa!