quinta-feira, 18 de setembro de 2025


SEMPRE QUE
(todas as vezes que, quando)
Locução adverbial conjuntiva relativa livre


1. Pepe apenas se sentia bem no pinhal, para onde fugia com o cão, sempre que o ia passear… (Djalmilia, Luanda, Lisboa… [XXII-9 - 13].

Pepe é um Galego, dono de uma taberna na Quinta do Paraíso e dum cão]

Oração composta
Suj.: Pepe; predicado: apenas se sentia bem no pinhal; complemento adverbial de lugar onde: no pinhal; complemento adverbial de lugar para onde: para onde fugia com o cão, sempre que o ia passear

- para onde fugia com o cão sempre que o ia passear
Proposição subordinada, adverbial, relativa livre

Suj.: ele (Pepe); predicado: fugia com o cão; compl. adverbial de lugar para onde: para onde (o ia passear); compl. adverbial de companhia: com o cão; adjunto adverbial de tempo: sempre que o ia passear

Sempre que: locução conjuntiva (conjuncional) de tempo (Bechara, 573).

- sempre que o ia passear
Proposição subordinada, adverbial, relativa livre
Suj.: ele (Pepe); predicado: o ia passear; compl. direto: o (o cão)

O relativo que entra em locuções conjuntivas (conjuncionais) de tempo: agora que, hoje que, a primeira vez que, sempre que, etc. (Bechara, p. 406)

Notemos: …sempre que ia passear o cão foi adjunto adverbial de tempo na oração anterior. Mas, porque é locução conjuncional, introduz uma proposição (oração) – e esta é adverbial relativa livre, equivalente a quando ou a “todas as vezes que”.

2. Sempre que chego, gosto de ir ver se o Pico ainda está no seu lugar... (V. Nemésio, Mau Tempo no Canal…69).

Conheci muito bem Vitorino Nemésio. Foi meu professor na FLUL nos anos 60 do século passado – e também todo o país o conheceu muito bem, devido a um programa, SE BEM ME LEMBRO que ele manteve na RTP nos anos 1969 a 1975. O povo adorava a sua naturalidade no falar e o seu  muito saber. De vez em quando, ainda o faço repetir uma palestra só para mim [no Google; no YOUTUBE). Experimentem…é uma delícia saber tanto e saber dizê-lo tão bem!

 Oração composta
Suj.: eu; predicado; gosto de ir ver se o Pico ainda está no mesmo lugar; adjunto adverbial de tempo: sempre que chego (todas as vezes que chego)

 - sempre que chego
Proposição adverbial relativa livre
 Suj.: eu; predicado: sempre que chego

- ir ver se o Pico ainda está no mesmo lugar;
Proposição subordinada completiva substantiva:
Suj.: eu; predicado: ir ver se o Pico ainda está no mesmo lugar; compl. direto: se o Pico ainda está no mesmo lugar

- se o Pico ainda está no mesmo lugar 
Proposição subordinada interrogativa indireta 
Suj.: o Pico; predicado: ainda está no mesmo lugar.

Sempre que: locução adverbial relativa livre - equivale ao advérbio relativo "quando", apresentando leve diferença aspectual;
quando: é advérbio relativo, e introduz proposições relativas livres 

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

VERBOS PLENOS  

VERBOS SEMICOPULATIVOS

Como professor de Língua portuguesa, certamente com mais tempo disponível do que os Colegas em serviço, decidi partilhar com eles o resultado deste meu estudo intensivo.

 Além da Gramática Explicativa da Sintaxe, publicada no Google, têm disponíveis os textos que venho publicando neste blogue. Merecem, a meu ver, particular atenção os textos sobre os verbos semicopulativos publicados em  1, 15, 21 e 23 de maio passado. Aí estão claramente demonstrados.

A noção de verbo transitivo PLENO é fundamental na análise sintática. Mas acontece que muitos dos transitivos não são plenos, porque se tornaram veículos de atributos semanticamente relevantes. Julgou.se que a função desses atributos seria a de predicativo do complemento direto - mas o próoprio sistema linguístico demonstra que eles integram o sintagma verbal, cfr. a análise das frases dos textos referidos a maio passado.



 

sexta-feira, 5 de setembro de 2025

ORAÇÕES RELATIVAS REFLEXAS

As orações relativas reflexas são independentes, à maneira das orações apositivas,
e são iniciadas por algo que, o que, coisa que, o qual, os quais…

   1.   No hospital, depois de falsas partidas, sustos e adiamentos, explicaram ao pai que o calcanhar do filho tinha conserto, se ele fosse operado até aos quinze anos, o que aconteceria em 1985. (Djalmilia Pereira de Almeida, Luanda, Lisboa, Paraíso, cap. II-1)


No hospital, depois de falsas partidas, sustos e adiamentos, explicaram ao pai que o calcanhar do filho tinha conserto
Oração composta

Suj.: eles (indeterminado); predicado: explicaram ao pai que o calcanhar do filho tinha conserto; compl. direto: que o calcanhar do filho tinha conserto; compl. indireto: ao pai; adj. adv. de lugar onde: no hospital; adjunto adverbial de tempo: depois de falsas partidas, sustos e adiamentos.


- que o calcanhar do filho tinha conserto
Proposição subordinada, integrante, substantiva
Suj.: o calcanhar do filho; compl. nominal: do filho; predicado: tinha conserto; compl. direto: conserto 

- se ele fosse operado até aos 15 anos
Proposição subordinada condicional
Suj.: ele; predicado: fosse operado; adjunto adverbial de tempo (limite): até aos 15 anos

- o que aconteceria em 1985
Oração subordinada relativa reflexa.
Suj.: o que (coisa que; antecedente: a oração anterior); predicado: aconteceria em 1985; compl. adverbial de tempo: em 1985.

Esta oração relativa reflexa não faz parte da anterior, é autónoma, funciona como espelho (reflexo) da anterior.

Notemos agora a oração seguinte:   

2. 
Vendia trabalho e comprava o que me faltava para viver (Alves Redol, Gaibéus, p.11)
Oração composta
Suj.: eu; predicado: vendia trabalho; compl. direto: trabalho
 
- e comprava o que me faltava para viver
Oração coordenada copulativa
Suj.: eu; predicado: comprava o que me faltava para viver; compl. direto: o que me faltava para viver
 
-que me faltava para viver
Proposição subordinada relativa adjetiva
Suj.: que (antecedente: o, aquilo); predicado: me faltava; compl. indireto: me; adjunto adverbial de fim: para viver.

 

Notem como a análise da frase 1 (o que aconteceria) difere totalmente da frase 2 (o que me faltava…), porque nesta o que   faz parte da oração anterior como seu complemento direto

 

 

 

 

 

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

  

O brinco da tua orelha
Sempre se vai meneando;
Gostava de dar um beijo
Onde o teu brinco os vai dando.
 
Tem um topázio doirado
Esse brinco de platina;
Um rubi muito encarnado,
E uma outra pedra fina.
O que eu sofro quando o vejo
Sempre airoso meneando!
Dava tudo por um beijo
Onde o teu brinco os vai dando.

                                           (As Canções de António Boto)

1.António Boto é um poeta maior na nossa literatura. Inexplicavelmente, é um poeta hoje muito esquecido. Foi um modesto funcionário público, expulso do seu cargo por alguma imprudência no atendimento dos cidadãos. Procurou trabalho no Brasil, e aí morreu em 1959, com apenas 62 anos.

O texto lírico que hoje apresentamos - uma Canção -  foi retirado das Canções de António Boto, na edição de 1956.

2.A forma mais nobre de Poesia lírica será o Soneto que Sá de Mirando trouxe de Itália (soneto quer dizer pequeno som, em italiano) e consta de uma estrutura fixa de 14 versos, em duas quadras e dois tercetos – como vimos, na semana passada, em “Árvores do Alentejo”.  Na literatura portuguesa, são geralmente tidos como grandes mestres do Soneto Luís de Camões, Bocage, Antero de Quental e Florbela Espanca.

3.A Canção que hoje aqui apresentamos faz também parte do género lírico e deve a sua entrada em Portugal a Sá de Miranda. Difere do soneto principalmente pela sua forma que apresenta  só duas estrofes:  uma quadra, seguida duma outra estrofe de 8 ou 9 versos.

A quadra expõe um tema,  e a estrofe longa (8 ou 9 versos) desenvolve esse mesmo tema que termina com um verso igual ao do final da quadra - como realcei pelo negrito dos versos finais de cada uma das duas estrofes.

4.Predominantemente, a canção aborda temas de amor – como é aqui o caso - e nisso não difere do soneto, nem da cantiga, que são as três formas que predominam na poesia lírica.

 

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

       Árvores do Alentejo

Horas mortas.... Curvada aos pés do Monte

A planície é um brasido e, torturadas,

As árvores sangrentas, revoltadas,

Gritam a Deus a bênção duma fonte!

 

E quando, manhã alta, o sol pesponte

A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,

Esfíngicas, recortam desgrenhadas

Os trágicos perfis no horizonte!

 

Árvores! Corações, almas que choram,

Almas iguais à minha, almas que imploram

Em vão remédio para tanta mágoa!

 

Árvores! Não choreis! Olhai e vede:

- Também ando a gritar, morta de sede,

Pedindo a Deus a minha gota de água!

                                                                                                 Florbela Espanca

 

Florbela, poetisa alentejana, é natural de Vila Viçosa. Não é que isso seja importante para a nossa análise. Mas ajuda sabermos que ela conhece bem, e viveu, essa paisagem de que nos fala – e que também nós, neste agosto abrasador, estamos sofrendo.

PROPOSTA DE LEITURA

1. O soneto abre com uma notação de tempo: horas mortas… seguida, de imediato, por uma notação de espaço: um vasto brasido povoado de árvores. Os versos 3 e 4 constituem o núcleo, o nó, a parte que justifica este soneto. Surge, neste nó, a prosopopeia que possibilita a Florbela a humanização das árvores que, torturadas, sangrentas, revoltadas, gritam a Deus pela bênção duma fonte.

2. Na 2.ª estrofe, em novo tempo (é, agora, manhã alta) e em novo espaço (ao longo das estradas) Florbela retoma o cenário dramático da 1.ª estrofe, ladeando as estradas com giestas amarelo-fogo, donde emergem, hirtas e desgrenhadas as árvores, tornando mais trágicos os sus perfis a recortar o horizonte.

3. No 1.º terceto, Florbela entra num novo espaço: em si mesma (almas iguais à minha) – e declara igual ao delas o drama da sua própria vida. Também ela anseia por remédio para a sua permanente mágoa.

4. No terceto final, atinge a confidência: não choreis…Também eu ando a gritar a Deus por uma gota de água.

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A poesia não tem como objetivo a descrição do mundo; ela é, apenas, tentativa ansiosa de o poeta se rever, entender, a si próprio. Fala para se conhecer, e tem de falar, porque a necessidade de encontrar a expressão própria não lhe permite o silêncio. Daí, as obsessões poéticas. Cada um tem temas que o dominam – as suas obsessões – e a elas recorre uma vez e muitas vezes, não de modos muito diferentes. A poesia lírica tende a ser biografia sentimental do sujeito poético.

terça-feira, 12 de agosto de 2025

                                         

Hoje é o dia do aniversãrio do Poeta Miguel Torga. Nascido em 1907, faria hoje 118 anos. Por isso, em vez da quinta-feira (nosso dia da poesia) adiantámos a publicação para hoje.

                                                SECURA

Cai a chuva nos campos ressequidos,
E a verdura desperta.
Água que desce em regos paralelos,
Repartida no crivo da igualdade.
Toda a sede pode beber
Da grande fonte maternal do céu.
Todas as ervas, todas as culturas
Todas as criaturas
Menos eu.

Diário, 16 de junho de 1952

Esta Poesia é uma daquelas composições que deve ser lida outra vez, e outra vez e outra vez (cfr. Os sulcos da sede, Eugénio de Andrade, ver claro, p.17 – ou neste meu blogue em   05/07/2012 – 1657 consultas).

1.Os dois versos iniciais conformam uma Proposição clara: a chuva cai nos campos e logo a verdura desperta.

2. Esta chuva, porém, toma, nos dois versos seguintes (3 e 4), a forma dum aposto explicativo que permite ao Poeta introduzir uma alteração [um ]; - e é que a chuva agora é água, repartida por um crivo de igualdade, como dádiva da grande fonte maternal do céu. Dela saciam sua sede todas as ervas, todas as culturas, todos os seres vivos…[Desenvolvimento]. 

4. O poema termina com uma profunda desilusão: Menos eu [Fecho].

                                              ___________

Miguel Torga declara muitas vezes, e de muitas maneiras, que se sentia fora da grande fonte maternal do céu, e afirma repetidamente que recusa qualquer conversão.

Temos disso prova evidente na mesma página do Poema (4 de julho de 1952). Nela, Torga escreve:

“Duas doentes, no fim da consulta, prometeram que iam rezar por mim. Agradeci, mas fiquei a parafusar no proselitismo incorrigível das religiões…. Há evidentemente o argumento da caridade. Quem tem o céu teria obrigação de o repartir com o semelhante. Mas se o semelhante o não quer, o recusa, e se mortifica com a generosa insistência?

Estas palavras, e muitas outras idênticas, são largamente ditas e repetidas no Diário; contrastam, porém, com um comportamento que é exatamente o seu oposto, assim:

“Abandono tudo para correr a casa dum amigo que está com dor de dentes, e passo uma noite em claro porque operei um doente, e ele pode ter uma hemorragia. Mas a minha fraqueza maior é não poder desprezar ninguém, mesmo os próprios inimigos. São meus semelhantes, apesar de tudo, e eu não consigo descrer do homem, seja ele como for. Em vez de os esquecer, trago-os no pensamento. Sofro por eles. A minha grande alegria é admirar os outros” (Diário, 12 de agosto de 1946).

[Este comportamento de Miguel Torga em nada difere da doutrina da parábola do Bom Samaritano (Evangelho de S. Lucas)].

No primeiro texto, palavras; neste segundo, atenção e serviço aos outros. Valha-me S. Miguel Torga.

 

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

 Coimbra, 12 de março de 1952 - (I-554)
           

                            RETRATO
 

O meu perfil é duro como o perfil do mundo.
Quem adivinha nele a graça da poesia?
Pedra talhada a pico e sofrimento,
É um muro hostil à volta do pomar.
Lá dentro há frutos, há frescura, há quanto
Faz um poema doce e desejado:
Mas quem passa na rua
Nem sequer sonha que do outro lado
A paisagem da vida continua.


I [Proposição]
O 1º verso é duro como o rosto de Miguel Torga, como que talhado à podoa sobre madeira de azinho.
 
II [] – Verso 2: poderá alguém imaginar naquele perfil o encanto da Poesia?
 
III [Desenvolvimento] – Os versos 3, 4, 5 e 6 alargam a proposta inicial e respondem à interrogação (ao nó) do verso 2, recorrendo a duas metáforas:  
pedra talhada a pico e sofrimento, muro impenetrável que resguarda os frutos que tornam doce e desejada a Poesia.
 
Parte 4.ª [fecho ou conclusão]: versos 7, 8 e 9: quem passa, vendo, apenas, a normalidade da vida do Poeta, mal se aperceberá de que no interior daquele muro, aparentemente hostil, possa residir a graça da Poesia  
 
Comentário
Isto é poesia; mais: isto é a Poesia, porque consegue criar e transmitir-nos uma estória (uma criação literária, logo, mero fruto de imaginação) que corresponde ao que o Poeta se propõe revelar-nos no título do seu Poema. 

Ao lermos Poesia, se a houver no Poema, ela terá de ser entendida. Não acrediteis em poesias de suspiros ou de exclamações! - que é o muito que por aí anda.

_________________
 
Texto de Miguel Torga, Coimbra, 16 de abril de 1952
Irremediavelmente, todos os poemas são datáveis. E a posteridade encontra mais perenidade naqueles que simultaneamente testemunham e sugerem. De resto, como poderia o poeta não ser do seu tempo, se ele é sempre a mais alta consciência de um tempo? O poeta não é uma abstração. É um ser real que existe no real.