segunda-feira, 20 de abril de 2026

Verbos Plenos / Verbos semicopulativos 

 achar; reputar; ter na conta de; ter por…

Estes verbos, entre outros, numas situações são verbos PLENOS, noutras são semicopulativos. [Verboss transitivo-predicativos há muito que desaparecerem]

Noções básicas:

1. Verbo pleno: O professor considerou a tua resposta  

Considerar é, aqui, verbo pleno. Nesta oração 1, o significado de considerar é: observar atentamente, ponderar, examinar

E a análise sintática desta frase  é: 
Suj.: o professor; predicado: considerou a tua resposta; compl. direto: a tua resposta. A forma passiva desta oração seria: A tua resposta foi considerada pelo professor.

2. Verbo semicopulativo: O professor considerou-te preguiçoso.

Na frase 1 o professor considerou-te; na frase 2, ele NÃO te considerou, mas magoou-te, teve-te na conta de preguiçoso.

O verbo considerar é o mesmo nas frases 1 e 2. Mas, na frase 2, é o atributo que impõe ao predicado o seu significado - exatamente como acontece nos verbos copulativos.

Os verbos considerar, achar, julgar, eleger, nomear…, podem ser PLENOS (oração 1) mas também podem ser portadores de atributos (oração 2) – e, neste caso, o seu comportamento sintático é o mesmo dos copulativos – por isso são SEMICOPULATIVOS.

Recordemos, e nunca esqueçamos: os verbos copulativos são totalmente vazios de sentido; porque nada significam, não podem cumprir a função de predicado. Recorrem, por isso, a palavras lexicais (atributos) – e são estes o núcleo semântico do predicado. Tanto os verbos copulativos como os semicopulativos NADA têm a ver com predicativos, sejam estes do sujeito ou de qualquer complemento.

O Dicionário da Academia e o Ciberdúvidas deveriam atualizar os seus conceitos sintáticos. É inaceitável que se continue a falar em verbos transitivo-predicativos, em predicativos do sujeito impostos por verbos copulativos, em complementos oblíquos, e, ainda, na trapalhada dos modificadores restritivos do nome, além de outros … 

E, já agora...

Há poucos dias o Ciberdúvidas foi a uma Escola,  tendo  a lição incidido sobre as possíveis funções sintáticas do pronome pessoal complemento me. Foram explicadas as funções de complemento direto e indireto. Bem, mas... E a função de sujeito?  Se os alunos me viram chegar atrasado àaula, o pronome pessoal me é sujeito de chegar. Porque terá sido omititida tal função?

Eu faço a análise sintática da oração, pois é provável que alguém tenha dúvidas...

Os alunos viram-me chegar atrasado à aula
Oração composta
Suj.: os alunos; predicado: viram-me chegar atrasado à aula; complemento direto: -me chegar  atrasado à aula


-me chegar atrasado à aula 
Proposição infinitiva substantiva [ ou oração subordinada infinitiva, substantiva]
Suj.: me; predicado: chegar atrasado à aula; complemento adverbial de lugar aonde: à aula;  predicativo do sujeito: atrasado.

No Português muito velhinho (o Latim) o sujeito das orações infinitivas ia para o caso ACUSATIVO - e isso acontece ainda hoje... É assim a Língua portuguesa!


terça-feira, 17 de março de 2026

 

ORAÇÕES SUBORDINANTES?

Há quase duas dezenas de anos que digo, e demonstro, que não há orações subordinantes – e não há mesmo! – mas, infelizmente, ninguém quer raciocinar cinco minutos para deparar com a evidência.

Mas eu continuo a tentar... 

1. O João diz a verdade:

Oração simples. 
Sujeito: João; predicado: diz a verdade; complemento direto: a verdade

 

2. O João diz que não mente.
(uma só ideia, expressa por dois predicados)
 Oração composta 

Suj.: João; predicado: diz que não mente; compl. direto: que não mente.

Esta oração (que não mente) é  parte da oração composta, é o seu complemento direto.

Todas as orações subordinadas estão nesta mesma situação: todas elas  desempenham função sintática em orações compostas. Por isso, para lhes marcar a subordinação, tomaram o nome de proposições. 

Assim, a oração que não mente  depois de ser classificada de complemento direto na oração composta  -  deverá ser classificada e analisada como PROPOSIÇÃO  integrante substantiva, assim:

- que não mente
Proposição integrante substantiva
Suj.: ele (João); predicado: não mente

Verá alguém a possibilidade de João diz ser uma oração? Claro que não... Como chamar-lhe oração subordinante?




 


terça-feira, 10 de março de 2026


Uma Oração Apositiva

 

 O Ciberdúvidas é hoje confrontado com um pedido de análise sintática do último verso de O QUINTO IMPÉRIO de Fernando Pessoa:

Grécia, Roma, Cristandade
Europa – os quatro se vão
Para onde vai toda idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?

O Poeta, depois de demonstrar que tudo tem um fim, interroga: quem virá que possa conviver com esta verdade: que morreu D. Sebastião?

Sintaticamente, este verso deve classificar-se como oração apositiva oracional, especificativa do nome verdade.

E, já agora, do P. António Vieira, Sermões II. 131:

Vede se é certa a minha verdade, que não há verdade no Maranhão. 

Oração composta
Suj.: vós; pred.: vede se é certa a minha verdade; compl. direto: se é certa a minha verdade…
 
 
- se é certa a minha verdade, que não há verdade no Maranhão
Proposição subordinada, interrogativa indireta, substantiva
Suj.: a minha verdade (que não há verdade no Maranhão); predicado: se é certa

 - que não há verdade no Maranhão 

Oração apositiva, explicativa, substantiva

Suj.: não tem; predicado: não há verdade no Maranhão; compl. direto: verdade:; adjunto adverbial de lugar onde: no Maranhão.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

 OS PREDICATIVOS

Predicativos são predicações secundárias sempre referidas ao sujeito ou a qualquer complemento. 

1.Em qualquer oração, é o Predicado que presta a informação essencial sobre o sujeito. Por vezes, porém, a frase (o seu Autor) adiciona informação que vai além da do Predicado, recorrendo a predicativos, não só do sujeito como de qualquer complemento.

2. Os predicativos são informação sempre dispensável, sempre opcional - mas muito útil pelas informações intercalares de que são portadores.

3. Um predicativo nunca tem de estar numa oração; e, se nela está, pode sempre dela ser retirado, mantendo-se a frase gramatical. Hoje, 23 de fevereiro de 2026, o Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa ainda afirma: “Na frase «A criança está contente», «contente» exerce a função de nome predicativo do sujeito”. Na frase «considerava aquela gente simpática», «simpática» exerce a função de nome predicativo do complemento direto.”. Claro que estas afirmações irão ser corrigidas – como outras, igualmente inaceitáveis. Muito me surpreende que também os verbos semicopulativos sejam ainda ignorados neste Dicionário. E não só...

Predicativos do Sujeito

1. Marta, com um pavor na vista, tremia, de pé, encostada à cómoda. (Camilo, A Brasileira de Prazins, 248).

Esta frase de Camilo Castelo Branco fala-nos de Marta (sujeito) e dela se diz que tremia (predicado). O Sujeito + o predicado seriam suficientes para formar uma oração, uma frase: Marta tremia.

Mas Camilo quis adicionar outras informações sobre Marta (sujeito), e recorreu a três predicativos: com um pavor na vista - de pé - encostada à cama. Porque Marta é sujeito, as três informações adicionadas, opcionais, que a ela se referem, são predicativos do sujeito.

Predicativos do sujeito são atributos que, dentro duma oração, prestam informação (secundária e opcional) sobre o sujeito.

- [mas os mesmos predicativos seriam do complemento direto se Marta fosse complemento direto, assim: Eu vi Marta (compl. direto); com um pavor na vista, de pé, encostada à cómoda.

É este, só este, o modo de funcionamento dos predicativos.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

 Os verbos semicopulativos são uns

vira-casacas…

Verbos semicopulativos mais frequentes; achar; chamar, considerar, deixar, eleger, julgar, nomear, reputar, ter na conta de, ter por…. Quando veiculam atributos, estes fazem parte do sintagma verbal (predicado).

ACHAR

Se eu acho um anel no chão é porque ele ali estava caído e perdido. Em tal caso, como antónimo de perder, é verbo PLENO;

- quando o verbo achar é veículo de atributos, deixa de ser pleno e é semicopulativo, assim: achar (o tempo) desagradável, achar (esta casa) útil, achar (a sintaxe) fácil, achar simpático o colega. Os verbos como achar, ligados a atributos, são semicopulativos – e fazem parte do sintagma verbal que é predicado

Verbos semicopulativos: verbos plenos que, devido à presença dum atributo, alteraram o seu significado, deixaram de ser PLENOS, e passaram a comportar-se, sintaticamente, como copulativos.

CHAMAR

Se eu chamo o Pedro, ele virá; se eu chamo parvo o Pedro, ele sentir-se-á ofendido e volta-me as costas.. O verbo chamar, quando não pleno, é portador de atributos como os copulativos - por isso é semicopulativo, como eleger, nomear,designar, etc... 

 Se eu chamo o PEDRO  parvo, o verbo chamar deixou de ser PLENO, foi portador de atributo - e o seu funcionamento sintático é exatamente o mesmo dos copulativos.

CONSIDERAR

- se eu considero os meus professores, é verbo PLENO; se eu considerasse antipáticos  os meus professores, o verbo deixaria de ser PLENO porque a portabilidade  do atributo o tornou semicopulativo.

CONCLUSÃO 

O verbo pleno tem, por si mesmo, um significado tendencialmente fixo.

Os verbos semicopulativos são uns vira-casacas: alteram o seu sentido ao envolverem-se com atributos. 

SÉRIOS e GENEROSOS são os verbos copulativos; cedem sempre aos atributos a nobre função de predicados.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

 Verbo DEIXAR

1. Não se pode deixar casar a pobre pequena com um brejeiro, um pedreiro‑livre, um ateu (Eça, O Crime…230).

2. A mim todos me deixam só (Agustina, Ternos Guerreiros, p.162)
Oração simples
Suj.: todos; predicado: me, a mim, deixam só; compl. direto pleonástico: me, a mim.

Esta oração simples podia ser apenas todos me deixam só. Mas Agustina quis focar a solidão da personagem. Para isso colocou o pronome pessoal da 1.ª pessoa (a mim) na posição de tópico ou de foco (no início da frase), repetindo depois o pronome na posição devida (canónica): todos me deixam só

– A este complemento direto repetido, ou duplicado dá-se o nome de complemento direto pleonástico. [pleonasmo: repetição exaustiva duma ideia].

Nestas duas frases, o verbo deixar é verbo pleno, apesar de apresentar sentidos diferentes: em Eça tem o significado de permitir, autorizar; em Agustina, o mesmo verbo tem o sentido de afastar-se ou apartar-se: todos se afastam de mim

Muito frequentemente, porém, o verbo deixar equivale ao verbo pôr-se (como em: estás a deixar-me ou estás a pôr-me nervoso - ou ainda estás a fazer-me ficar nervoso). Nesta acepção, o verbo deixar não é pleno, mas semicopulativo, como achar, considerar, chamar, etc….

Estás a deixar muito contentes os teus alunos [deixar, aqui, não é permitir nem ir embora – não é PLENO.

Suj.: tu; predicado: estás a deixar muito contentes os teus alunos; compl. direto: os teus alunos. [estás a fazer ficar muito contentesdeixar: verbo semicopulativo].

Estes verbos semicopulativos estão repetidamente explicados neste blogue – mas, principal-mente, em 1 e 21 de maio passado.

3.Então Lilimunde, na penumbra do quarto, falou de um propósito que me deixou sur-preendida (Lídia Jorge, Misericórdia, cap.21-2)

Oração composta

Suj.: Lilimunde; predicado: falou de um propósito que me deixou surpreendida; compl. adverbial preposicionado de tema ou assunto: de um propósito que me deixou surpreendida; adjunto adverbial de lugar onde: na penumbra do quarto

- que me deixou surpreendida

Suj.: que (antec.: propósito); predicado nominal: me deixou surpreendida; compl. direto: -me. [O verbo deixar, quando significa fazer ficar ou pôr-se, é semicopulativo

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

 A PREPOSIÇÃO DESDE versus LOCUÇÃO CONJUNCIONAL DESDE QUE

1. O pai do rapaz informou sua mulher da vinda do filho, mas não desejava vê-lo desde que ele abandonou os estudos.

Oração composta

Suj. o pai do rapaz; predicado; informou sua mulher da vinda do filho; complemento direto: sua mulher; complemento adverbial de tema ou assunto: da vinda do filho.

O verbo informar, além de complemento direto, seleciona complemento circunstancial de tema ou assunto. Tanto um complemento como o outro são complementos argumentais.

- mas não desejava vê-lo desde que ele abandonou os estudos

Oração coordenada adversativa
Suj.: ele (pai); predicado: não desejava vê-lo; complemento direto: (l)o; adjunto adverbial de tempo: desde que ele abandonou os estudos.


- (desde) que ele abandonou os estudos
Oração relativa adverbial de antecedente incorporado

Desde é uma preposição, e o seu termo tanto pode ser um substantivo (desde o abandono dos estudos), um advérbio (desde então, desde sempre) ou uma oração relativa adverbial de antecedente incorporado, equivalente a desde quando ele abandonou os estudos – Nestes casos, o verbo está em modo indicativo.

Mas se desde que apresentar sentido de condicional é uma locução conjuncional condicional, e terá o verbo no conjuntivo, como é evidente na frase seguinte:

2.Todos os caminhos são bons desde que sejam caminhos (V. Ferreira, alegria breve,184).

Oração composta
Suj.: todos os caminhos; predicado: são bons; adjunto adverbal de condição: desde que sejam caminhos.


- desde que sejam caminhos (se forem…)

Proposição subordinada condicional
Suj.: eles (os caminhos); predicado: sejam caminhos

(desde que com verbo no modo conjuntivo: locução conjuncional condicional)