sexta-feira, 30 de novembro de 2012


Pergunta duma professora
Ciberdúvidas (28 Nov.2012)

Na frase:
Vivo aqui com os meus pais
- qual a função sintáctica de «aqui» e de «com os meus pais»?

Resposta do Ciberdúvidas, de acordo com o Dicionário Terminológico:          

            Aqui: complemento oblíquo
            Com os meus pais: modificador verbal
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Ajudará tal análise à descoberta do sentido da frase? Não!
Será, então, fruto, apenas, de ignorância? Também me custa a crer. E admito que isto se mantém por interesses editoriais.
E…os alunos? Continuam a ser o que foram sempre: mero pretexto para interesses alheios.
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Mas voltemos à análise do Ciberdúvidas

1.     Porque é que aqui seria um complemento oblíquo?
Não há nele qualquer desvio  que possa justificar tal classificação. O verbo viver (residir) é inequivocamente transitivo: seleciona complemento de lugar.

2.     Porque é que «com os meus pais» seria um modificador verbal?
Não é verdade! Aquele SP não modifica nada!
Modificador verbal existiria na frase se, por exemplo, ela fosse: vivo aqui, bem, com os meus pais. Só em tal caso é que existiria na frase  um modificador verbal: viver bem.

3.     A terminologia do D.T. está profundamente errada; os seus termos, como, mais uma vez, aqui verificamos,  não correspondem às funções. A análise sintática  feita segundo as normas do D.T. e divulgada pelo Ciberdúvidas não tem qualquer fundamento.

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Como deve, então,  ser feita a análise da frase:

Vivo aqui com os meus pais
Suj.: (oculto): eu;
Pred.: vivo aqui com os meus pais
Complemento circunstancial de lugar (onde): aqui
Adjunto circunstancial de companhia: com o s meus pais.
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Nota 1:
O verbo viver é aqui interpretado com o sentido de residir. Como tal, seleciona complemento circunstancial de lugar. A frase seria gramatical, assim: Eu vivo aqui.
A informação adicionada (daí o nome de adjunto) não é obrigatória. [Por isso, com os meus pai, é um adjunto circunstancial de companhia].

Nota 2:
Mas o mesmo verbo viver poderia ser interpretado como  conviver , levar a vida e, nessa aceção,  selecionaria complemento circunstancial de companhia.
            Eu vivo com os meus pais  [*Eu vivo]
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A língua e o verbo viver  não nos obrigam a revelar onde vivemos; forçam-nos a uma das informações: ou onde ou com quem. Por isso são gramaticais as frases:
            Eu vivo aqui
            Eu vivo com os meus pais
                        Mas seria agramatical: *eu vivo
Em ambas as frases gramaticais, o predicado é obrigatoriamente formado por verbo + complemento circunstancial.

Mas podemos juntar as duas informações numa só frase. Será, então, complemento  a que vier em primeiro lugar, e adjunto a seguinte.
            Eu vivo aqui com os meus pais [aqui: compl.; com os meus pais: adjunto]
            Eu vivo com os meus pais, aqui [com os meus pais: compl.; aqui: adjunto]

Estes são os preceitos da sintaxe atual.
A análise do Ciberdúvidas, feita pelos preceitos do D.T.,  não merece credibilidade.





quarta-feira, 8 de agosto de 2012


Poesia nas férias
Os poemas publicados neste blogue são apontamentos que serviram de base aos comentários que eu fazia aos meus alunos nas aulas de português do 9.º ano. Não podem ser confundidos com crítica literária, para a qual não tenho preparação. São, apenas, comentários escolares que poderão servir de inspiração a algum Colega mais jovem.
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Dia de Anos
Com que então caiu na asneira
De fazer na quinta-feira
Vinte e seis anos! Que tolo!
Ainda se os desfizesse…
Mas fazê-los não parece
De quem tem muito miolo!

Não sei quem foi que me disse
Que fez  a mesma tolice
Aqui o ano passado…
Agora o que vem, aposto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz o mesmo? Coitado!

Não faça tal; porque os anos
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho:
Faça outra coisa; que em suma
Não fazer coisa nenhuma,
Também lhe não aconselho.

Mas anos, não caia nessa!
Olhe que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois se se habitua,
Já não tem vontade sua,
E fá-los, queira ou não queira!
João de Deus (1830-1896)
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O poema relata um encontro de amigos. Um deles faz anos; o  outro  manifesta, por isso, um enorme espanto: Ainda se os desfizesse…
-Na estrutura do poema, esta estrofe é a sua  proposição.

A segunda estrofe mitiga a surpresa, aduzindo o caso duma terceira pessoa,  que caiu no mesmo erro  aqui há um ano: Não sei quem foi que me disse / que fez a mesma tolice…
                - Na estrutura do poema, esta  segunda estrofe corresponde ao desenvolvimento.

As duas últimas estrofes são a conclusão: conselhos de amigo acompanhados das convenientes justificações:  Não faça tal… (estrofe 3);  Mas anos, não caia nessa!  (estrofe 4) .
                - Curiosamente, esta conclusão ocupa neste poema, um espaço maior do que o desenvolvimento.  E é natural, devido à natureza do poema:  um encontro de amigos  em que um, jocosamente,  tenta motivar o outro a  uma decisão inverosímil: deixar de fazer anos.
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Notai, agora, a clareza deste poema! Toda a gente o entende!  
E notareis ainda que se trata dum poema muito gracioso, originalíssimo devido à sua argumentação inverosímil.

E prestai, finalmente, atenção à sua técnica: 4 estrofes de seis versos (sextilhas), versos de 7 sílabas (redondilha maior) rima: aabccb: emparelhda (aa; cc) e interpolada (b - - b)
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 João de Deus viveu no  séc.XIX. (1830-1896). Licenciou-se em Direito ao fim de 10 longos anos de curso, em Coimbra.  Foi contemporâneo e amigo de Antero de Quental.  Não foi um bom estudante, nem um bom Advogado, mas  um bom poeta e, sobretudo, um grande pedagogo.  A sua obra mais notável foi a Cartilha Maternal, o livrinho por onde aprenderam a ler mutos milhares de portugueses.  Os jardins-escola João de Deus perpetuam-lhe  a memória .
Era natural de S.Bartolomeu de Messines.

terça-feira, 31 de julho de 2012


O predicativo do complemento direto


Carla disse
Podia, por favor, dar um exemplo daquilo que, no seu entender, é um predicativo do complemento direto?
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Os predicativos do c.direto são grupos sintáticos que, opcionalmente,  adicionam à frase informação sobre constituintes  que nela desempenhem a função de complemento direto.
1.   Hoje vi a Margarida.
2.    Hoje vi a Margarida picando couves
3.    Hoje vi a Margarida, de manguinha curta, picando couves.
4.    Hoje vi a Margarida, alegre, de manguinha curta, picando couves.

Na frase 1 temos uma frase simples, gramatical. Nela, Margarida é complemento direto.
Suj.: eu (subentendido); pred.: vi  a Margarida; a Margarida: compl. direto.

Na frase 2, adicionámos uma informação opcional a respeito da Margarida. Porque Margarida é complemento direto, aquele atributo (gerúndio) é predicativo do complemento direto.
Nas frases 3 e 4 –  temos outros atributos opcionais de Margarida, logo, outros predicativos do complemento direto.

Características:
1.     Os predicativos do complemento direto são opcionais: quer isso dizer que, retirados da frase, esta mantém a sua gramaticalidade.
                      
2.    Os predicativos podem antepor-se ao verbo, mantendo a frase todo o seu sentido:
                                   De manguinha curta, picando couves, vi hoje a Margarida

3.    Os predicativos não acompanham a pronominalização do complemento direto:
                            Vi-a hoje, de manguinha curta, picando couves

Predicativo do complemento direto é, pois, um atributo que opcionalmente se insere numa frase como predicação dum constituinte que nela seja complemento direto.


quarta-feira, 11 de julho de 2012


O vulcão açoriano

Vem este título a propósito dum texto publicado ontem pelo Ciberdúvidas, e cuja autora é uma professora de português duma Escola nos Açores, em Vila Franca do Campo. O nome da senhora é DORA PATRÍCIA CAMBÓIA.
O  seu zelo vulcânico pela língua portuguesa é tal que me deixa muito maltratado, chegando a pedir ao Ciberdúvidas que apague respostas minhas, pois elas “em nada dignificam o vosso trabalho”.

Esta senhora professora  tem, no Ciberdúvidas, um modelo: ela é fiel seguidora das análises feitas pela Dra. Maria Regina Rocha (“a única credível”, nas suas palavras).
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A senhora professora açoriana  retoma uma frase que eu analisei e onde, segundo ela,  é evidente o meu erro, felizmente corrigido pela Dra. M.Regina Rocha. E a frase é:
                  Joana declarou-se capaz de falar em público

Como a Dra. M.Regina Rocha, também ela afirma que aquele “se” é inequivocamente complemento direto e não sujeito como esse senhor (sou eu!) categoricamente afirma num discurso afetado.

Estão aqui em causa, além dos erros das duas professoras, o comportamento do Ciberdúvidas. Quando alguém, sem qualquer fundamento, lhe disse que uma resposta minha estava errada, o Ciber apressou-se a apagá-la. Quando é evidente que as respostas da Dra. Regina, no texto em que pretende corrigir-me, são uma sucessão de erros, o Ciberdúvidas não as apaga, e o resultado é evidente: numa Escola dos Açores, uma professora ensina disparates porque o Ciberdúvidas os mantém em linha.

Aquele texto que a Dra M.Regina Rocha publicou, pretensamente para corrigir erros meus,  deve ser apagado. Ele está inequivocamente errado, e induz em erro, como se prova com a declaração da nossa Colega dos Açores.
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Nem a Dra. M. Regina, nem a nossa Colega Açoriana deveriam ignorar que o complemento direto da voz ativa é o sujeito da voz passiva. Ponham aquela frase na voz passiva, e vejam se aquele se (ela) é sujeito do verbo declarar.  Verificarão que aquele se, na voz ativa,  não é complemento direto do verbo declarar, pois não pode ser seu sujeito  na voz passiva.

Para evitar dúvidas, ponho eu a frase na voz passiva:
Por Joana foi declarado que (ela própria) é capaz de falar em público.
Frase composta.
Suj.: a oração subordinada substantiva, completiva: que ela é capaz de falar em público; Pred.: foi declarado por Joana; por Joana: complemento agente da passiva, ou, de preferência, complemento de por.

Na voz ativa, a análise é:
         Oração composta.
         Suj.: Joana; pred.: declarou-se capaz de falar em público; se, capaz de falar em público: complemento direto.

         - se, capaz de falar em público: oração reduzida, oração pequena ou cláusula mínima, subordinada substantiva, completiva.
         Suj.: se; pred.: capaz de falar em público.

Estas análises não são opiniões. São as únicas gramaticalmente corretas.

O Ciberdúvidas, se quiser ser justo,  deve apagar os textos das duas professoras. Comprovadamente, eles divulgam disparates.

quinta-feira, 5 de julho de 2012


Poesia às Quintas (6)

                                     Ver Claro

Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se  regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.

Os Sulcos da Sede - Eugénio de Andrade-2001

Este pequeno poema é de uma transparência luminosa e de uma beleza surpreendentes. Num estilo directo, claro, quase de prosa, Eugénio de Andrade apresenta uma tese, demonstra-a, e conclui. A verdadeira Poesia é assim: quase natural, sempre despretensiosa, humilde mesmo.
Desconfiai dos Poetas complicados! Querem ocultar o nevoeiro que lhes obscurece a alma..

Análise lógica:
Eugénio de Andrade começa por fazer uma afirmação: toda a poesia é luminosa.
Apesar disso, ele sente que, por vezes, o leitor tem dificuldade em ver claro, em apreendê-la, em senti-la, em identificar-se com ela – e tudo  isso é ler poesia.
(Notai a Antítese: poesia luminosa perante um leitor com nevoeiro dentro de si).

Mensagem de esperança: poderemos sempre chegar à Poesia: Se regressarmos - e notai a insistência - se regressarmos outra vez e outra vez e outra vez a essas sílabas acesas (a Poesia) o leitor ficará cego de tanta claridade (verso 10).
(Notai aqui a metáfora:  sílabas acesas)
O Poeta conclui: abençoado seja se lá chegar (verso 11)

Houve um Poeta Inglês - Keats - que escreveu: “A little of beauty is a joy for ever”: uma fração de beleza é um prazer para sempre. Ou, por outras palavras: Quem alguma vez tocou a beleza, ficou marcado para sempre.
É isto que, por outras palavras, nos diz Eugénio de Andrade: Abençoado seja se lá chegar.

Análise Gramático-textual:
É muito curioso este poema: ele constitui um pequeno enredo, fábula, trama, intriga ou diegese (todas estas palavras querem dizer o mesmo!) perfeitamente analisável sob o aspeto da Narrativa.
Neste poema podemos identificar:
-       proposição - ou prefácio, entrada, proposta inicial, apresentação. (v.1 e 2)
-       um (v.3,4 e 5)
-       um desenvolvimento (v.6 a 10)
-       uma conclusão (v.11).
Por outras palavras:
Eugénio de Andrade inicia o poema com uma afirmação genérica: Toda a poesia é luminosa, mesmo aquela que nos parece mais obscura.
É esta a entrada, proposta inicial, prefácio, ou a apresentação.

Mas...A afirmação inicial terá alguma dificuldade em se verificar, porque o leitor, às vezes, em vez de sol tem nevoeiro dentro de si. É o nó.

Como se transporá tal dificuldade, ou  como se desatará esse ?
Regressando insistentemente a essas sílabas acesas.
E este será o desenvolvimento ou a demonstração, ou a solução do nó.
Notai, mais uma vez, a metáfora: o texto poético, sendo arte da palavra, é arte das sílabas...Daí pois,  sílabas luminosas, sílabas acesas.

O último verso constitui a conclusão ou o fecho.
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Todo o texto deverá seguir esta ordem mínima:
            -1 - apresentação do que se vai dizer,
            -2 - dizê-lo (desenvolvimento)
            - 3 - conclusão

Finalmente:
Um texto poético não é excepção a este procedimento fundamental da comunicação humana. Desconfiai sempre dos poetas difíceis. Podeis crer que muito do que deles se diz e escreve não corresponde à sua poesia, mas àquela que alguns críticos querem, e desejam, ver nela.


quinta-feira, 28 de junho de 2012


POESIA às Quintas (5)

Meu Caro António Salvado
Hoje passei a tarde consigo, nas AURAS DO EGEU.
Além do prazer da companhia, agradaram-me muito os poemas, todos os poemas. Mas…vai sempre havendo um ou outro que mais nos surpreende. E digo-lhe já quais deles, nesta  primeira e, por enquanto, única leitura, se me agarraram à lembrança: e foram  ASTRO DA MANHÃ, pág. 13 e PEQUENAS COISAS… pág. 41.

Como muito bem sabe, eu não tenho qualquer preparação para crítico literário. Não se pode, pois, esperar dum homem da sintaxe mais do que apreciação de leitor comum. Mas fiquei com a impressão de que o António  Salvado está aqui muito mais Poeta do que aquele que eu conhecia.
Peguei nas AURAS DO EGEU para lhe dar uma volta, ler um poema aqui outro além – e não fui capaz de parar. Li-o todo, de seguida.
Gostei muito.
Partilho com os seguidores do Cibersintaxe o seu

ASTRO DA MANHÃ…

Astro da manhã: amada,
astro da tarde: querida;
tens a luz ao nascer d’alba
e brilhas ao despedir-te –

só quem não soube d’amor
o silêncio de palavras
é que podia      ao alvor
não querer-te     não amar-te,

não esperar-te     pela tarde
para contigo encantar-se.
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Se ainda fosse professor, proporia aos meus alunos a leitura mais ou menos assim:

O Poeta é um contador de estórias por um eu imaginário (o sujeito poético).
É imaginário o sujeito poético, e é imaginada a situação. Literatura é isso: estórias imaginadas.

Neste ASTRO DA MANHÃ, o sujeito poético cria duas personagens femininas, correspondendo cada uma ao tempo de presença junto do amado: uma é o astro da manhã;  a outra, o astro da tarde. Ambas são muito queridas ao sujeito poético que a elas se refere como amada e querida.

Entre as duas, porém, interpõe-se uma ausência.
E esse é o momento decisivo do poema: o seu nó, o seu problema.
Fixemo-nos  nos versos da segunda estrofe: só quem não conheceu o silêncio das palavras de amor, ou o sofrer de ausências, é que poderá imaginar a ausência como um vazio de amor e admitir a possibilidade de:

- não esperar-te pela tarde
para contigo encantar-se.

Também nós ficámos encantados com o reencontro deste amor-encantamento do
António Salvado, que estava já presente no poema aqui apresentado no passado dia 13.

Gostei muito.
Um abraço

quinta-feira, 21 de junho de 2012




Poesia às quintas (4)

Ana Rita Calmeiro é natural de Castelo Branco.
Estudou aqui, andou por estas mesmas salas de aula – e daqui partiu para Coimbra onde se licenciou em Direito.
Leitora compulsiva, manteve, durante vários anos, a publicação semanal dum artigo sobre obras culturais de publicação recente. Escreve muito bem.
Ela é hoje distintíssima Advogada.
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A Gaivota
                            Quando olho para trás
                            vejo sempre uma gaivota morta
                            crucificada nos meus passos.
                            Pressinto que é a minha alma
                            cansada dos meus voos tão altos!
                               Ana Rita Calmeiro, Luminária, Alma Azul,p.40

Como sabemos, a metáfora consiste na referência a um objeto em vez  de outro, com fundamento na semelhança mútua.

Quando Ana Rita Calmeiro, para nos definir um estado de alma, diz: "quando olho para trás / vejo sempre uma gaivota morta / crucificada nos meus passos " - o que ela faz é criar um símbolo que nos dá uma correspondência sensível dos sentimentos do sujeito poético. Isto é: ela concretiza sentimentos numa imagem, que os traduz e no-los torna inteligíveis.
Ser poeta é isso: ser capaz de criar símbolos que sejam encarnação dos possíveis estados de alma.

A criação poética resulta de dois momentos:
- Momento da inspiração: o poeta capta ou apreende beleza, atravessado por uma emoção. Sente a beleza, delicia-se na beleza – como os não-poetas a sentimos na delícia duma música, na contemplação duma pintura ou na presença dum bailado;
- mas só é poeta quem sentir a necessidade, e for capaz, de criar um texto que partilhe com os outros a beleza intuída: é esse o momento da criação.

Mas não confundais poesia com narração da beleza intuída pelo poeta. Não! O objetivo do Poeta não é contar, mas criar símbolos onde o sujeito poético se reveja e, sobretudo, nos possamos rever também nós.

Voltemos ao poema:
Quando olho para trás... o que vejo são sonhos falhados. É como se visse, por terra, morta, uma gaivota de voo esbelto..
Pressinto que poderá ser esse o destino de minha alma, cansada de voos tão altos.

O Poeta é um contador de estórias, um criador de enredos e de símbolos que tornem sensíveis os sentimentos universais: alegria, angústia, surpresa, medo, esperança. Por isso, não há poesia sem outro, ou seja, o poeta cria para partilhar. Ninguém é poeta para si mesmo.
Será uma forma de disfarce de incapacidades poéticas fechar de tal modo um poema que este se torne incompreensível. A Poesia não é uma ciência enigmática, nem coabita com charadas!
Quando não entenderdes um Poema, deixai-o! O Poeta não foi capaz de ser claro por não ver claro; em vez de sol, ele tinha nuvens, complicações, problemas, charadas dentro de si. Como podemos nós entender tais poetas se eles não são capazes de encontrar expressão inteligível e partilhável? Há um poema VER CLARO de Eugénio de Andrade que é muito elucidativo a este respeito. Estudá-lo-emos.

Vamos reler, agora, o poema da Ana Rita Calmeiro.
         - que clareza!: o símbolo é imediatamente apreendido;          
         - que força!: em poucas palavras, define um estado de alma;
         -que surpresa! - a originalidade do símbolo e a economia de palavras conseguem transmitir-nos um estado de alma complexo em que todos gostamos de nos ler (de nos rever).

Formalmente, estamos perante um poema curto, à maneira do haicai, composição japonesa com 17 sílabas métricas.