O Ciberdúvidas continua a surpreender-nos
1.Esta semana saíram daquele portal, no campo da
sintaxe, graves omissões sobre as funções sintáticas do pronome pessoal -lhe
- e, também, a afirmação errada de que têm a mesma análise duas frases que,
na realidade, pertencem a modelos estruturais contraditórios (verbos plenos /
verbos semicopulativos), como veremos de seguida.
Quanto ao LHE, o Ciberdúvidas declara-lhe apenas duas funções sintáticas: a de complemento indireto e a de complemento oblíquo (esta última, a asneira mais destruidora da Sintaxe nas Escolas!). Que pobreza! Como não reconhece o Ciberdúvidas ao -lhe as funções de sujeito, de complemento direto, e, ainda, as de complemento indireto não argumental (como os dativos éticos, de posse, de interesse, e o dativo de lugar? - Trataremos esta assunto aqui, muito em breve)
2.Também, no final da semana passada, o Ciberdúvidas voltou aos verbos transitivo-predicativos, apresentando como equivalentes as análises de duas frases que possuem dinâmicas sintáticas e semânticas opostas, como demonstro a seguir.
A frase «Consideramos
aqueles alunos inteligentes», como todas, tem de manter o mesmo sentido na
sua forma ativa como na passiva.
Analisemos a frase na sua forma ativa, errada: Sujeito: nós; predicado: consideramos aqueles alunos; complemento direto: aqueles alunos; predicativo do complemento direto: inteligentes.
A conversão
passiva, correta, desta análise resultaria assim:
Sujeito: aqueles alunos (era compl. direto na ativa) predicativo do sujeito: inteligentes (era predicativo do compl. direto); predicado: são considerados; compl. de agente da passiva: por nós
Vejamos agora o desequilíbrio semântico
que aqui aconteceu:
Na forma ativa: Consideramos aqueles alunos inteligentes (atribuímos-lhes uma qualidade; mas os alunos podem não o ser; é, apenas, a nossa avaliação).
Na forma passiva: Aqueles alunos, inteligentes, são considerados por nós (aqui, inteligentes passa a ser uma característica factual dos alunos — eles são mesmo inteligentes — e nós consideramo-los, isto é, temos estima ou consideração por eles.
Mas é bem claro que o sentido da forma ativa não coincide com o da forma passiva. E porquê? Porque o verbo considerar, neste contexto, não é um verbo pleno, mas semicopulativo. O predicado real, na forma ativa, tem de ser o predicado complexo: «consideramos inteligentes» (exatamente como os predicados dos verbos copulativos. Só assim "bate a bota com a perdigota".
E a análise deve, pois, ser: suj.: nós; predicado: consideramos aqueles alunos inteligentes; complemento direto: aqueles alunos;
Forma passiva: aqueles alunos são considerados inteligentes por nós.
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Inversamente, repare-se na
frase: «O juiz julgou o réu inocente». Aqui, o juiz é mesmo um juiz em
pleno exercício e profere um veredicto legal: o verbo julgar é PLENO.
A análise clássica (e correta) é: Sujeito: o juiz; predicado: julgou o réu; complemento direto: o réu; predicativo do complemento direto: inocente
Ao passarmos para a voz
passiva: «O réu, inocente, foi julgado pelo juiz»), o valor de verdade e
o sentido da frase permanecem rigorosamente os mesmos da forma ativa.
É assim a Língua portuguesa!